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28 fevereiro, 2014

Tem calma contigo, 2014

No primeiro mês de 2014 aconteceu uma espécie de tsunami na minha vida, que me levou trabalho, casa e que me ia levando a relação. Já não podia com a porcaria do ano. Caramba, tinha sobrevivido ao 13 e agora era o 14 que me trazia todos os azares da vida?

O segundo mês de 2014 devolveu-me tudo, com mudanças, claro. Sou uma jornalista em Portugal e demorei 18 dias a encontrar um novo projecto (pista: é online e vai nascer no primeiro semestre de 2014). A relação tenta voltar aos eixos e decidimos que se calhar era giro vivermos juntos, pelo que me mudei esta semana para a bela freguesia de São João do Estoril, longe de tudo menos do Santini, das tias e da praia.

Regressada ao Porto para uns dias de férias antes de começar o novo trabalho, procuro uma maneira soft de contar à minha avó de 87 anos que vivo em pecado com um homem.

- Então agora que arranjaste trabalho não podes continuar a viver na mesma casa?
- Não posso, vó, já a passei a outra pessoa, não podia voltar atrás...
- E para onde vais viver?
- Olha, [engulo em seco] vou viver com o P.. Não faz sentido passado tanto tempo cada um viver na sua casa. E como eu não tinha mais nenhum sítio para ir...
- ... [olhar perturbado. temo pela sua saúde] ... E não casais?!?
- Oh vó, sabes que o casamento não me diz nada. Afinal, é só um papel, e hoje em dia ninguém da minha idade casa!
- ... És a primeira pessoa na família que é JUNTA.
- Também sou a primeira em muitas outras coisas. Olha, sou a primeira pessoa na família licenciada!
- [Ignorando este dado inútil] Tu é que sabes.

[Silêncio]

- O que é que a mãe do P. acha disso?
- Acha normal. Hoje em dia é normal vó!

[Comento qualquer coisa sobre o programa da Fátima Lopes na TVI, tentando desanuviar o ambiente. Tentativa falhada.]

- E nem sequer fazes uma despedida de SOLTEIRA?
- Não vó...
- Tu é que sabes.

Aposto que, esta noite, em vez de um terço a minha avó vai rezar 10, pedindo a deus pela salvação da minha alma.
Qualquer dia estou eu agarrada ao terço. É que, de repente, vou passar a morar em Cascais e trabalhar num projecto de direita. É capaz de ser a evolução natural, não?

27 dezembro, 2012

Caros responsáveis pela divulgação de eventos junto dos jornalistas:


Nós, jornalistas, vemos bem. O facto de o nome do vosso cliente estar a LETRAS MAIÚSCULAS por todo o comunicado de imprensa não ajuda em nada. Chega até a irritar-me um bocadinho.

Nós recebemos carradas de comunicados por dia e, infelizmente, não temos tempo para abrir todos. Mas, por favor, não nos liguem de cada vez que enviam um comunicado, a perguntar se recebemos o comunicado. Sob pena de passarmos a evitar o vosso número de telefone, ou de pedirmos à colega que atendeu para dizer que não estamos na redacção. Nunca vamos estar para vocês. Façam-no apenas quando é mesmo importante e, de preferência, só a partir do dia seguinte. Dêem-nos tempo, que somos filhos da crise e temos de fazer o trabalho dos 2 ou 3 colegas que foram despedidos ou alocados a outros projectos.

O tempo é escasso. Por isso, os comunicados que nos enviam não devem ser enormes. Como reduzir palavras? Por exemplo, cortando nos inúmeros adjectivos com que adoram adornar o vosso representado. Já sabemos que a cantora é única, e que o espectáculo será inesquecível, inovador, e que nos fará viajar por um turbilhão de emoções com a sua voz cristalina, ímpar, que já encantou milhares de espectadores por todo o Portugal. A sério, já viram esta lengalenga ser publicada em algum meio de comunicação? What’s the point, carago?

Cara RFM: não gosto que me mandes comunicados com eventos que tu patrocinas e cujo título diz – em maiúsculas, claro! – “DIVULGAÇÃO IMEDIATA”. Isto é suposto ser o quê? Uma dica para que pare tudo o que estou a fazer e divulgue imediatamente o vosso evento, que promete “festas imperdíveis”, “a maior e mais exclusiva passagem de ano na invicta”, “deslumbrante palco” (…) ?!

E assim se passa uma manhã de trabalho.

30 julho, 2012

Acabo de receber a primeira candidatura espontânea da minha vida.

Ainda há pouco mais de dois anos era eu quem estava do outro lado, a enviar currículos para endereços electrónicos de órgãos de comunicação social, mas só para os que colocavam anúncios. Mas este jornalista não tem 21 anos. Não saiu agora da faculdade. Tem experiência, tem carteira de jornalista. Não é fácil procurar emprego em Portugal, muito menos em jornalismo.

Queria contratá-lo a ele e a todos, mas o máximo que consegui fazer foi enviar-lhe um e-mail a agradecer o contacto mas, não, não estamos a contratar.
Eu nem isso recebia.

Boa sorte a ele e a todos...*

21 junho, 2012

"se não baixarmos os salários, não podemos ser competitivos"

Nunca foi fácil. É preciso lembrá-lo, hoje mais do que nunca.


17 abril, 2012

Mas já ganhei uma viagem a Paris por ser a melhor a francês, ok?

Esta manhã, no trabalho, a minha chefe conta-me que uma jovem norte-americana de 24 anos ganhou um Pulitzer. Tem piada porque, um pouco antes, esta jovem ermesindense estava no banho a magicar em como há-de arranjar a carteira de jornalista se ninguém no seu trabalho a tem (se não tiver um orientador no meu local de trabalho com carteira, o meu tempo de trabalho como jornalista não conta para obtê-la).

A notícia provocou-me logo aquele sentimento de inferioridade. Então essa lambisgóia não tem consideração pelo mal estar que provoca às outras jornalistas de 24 anos que nunca ganharam nada? Enfim!
E lá fui eu ao Google pesquisar por “24 year-old-girl wins pulitzer”. 

Abro a página e vejo que, para além de ter a minha idade, se chama Sara.
E que também acabou o curso em 2008.
(…)

É de deixar uma gaja que passa 8h por dia sentada em frente a um computador ligeiramente frustrada. Mas muito dificilmente eu seria uma Sara Ganim. Vejamos duas contrariedades inultrapassáveis:

1 – “she wakes up at 3 a.m. or 4 a.m. most mornings and starts working”. Eu deito-me à 01h e acordo as 08h, mas só saio da cama depois de meia-hora de luta comigo mesma. Se houvesse um Pulitzer para quem dorme melhor, aí sim eu seria uma séria candidata.

2- Ela trabalha na secção de polícia. Quando fui para o JN, dei graças a São Francisco de Sales de não me terem colocado nessa secção específica. O drama, o horror, as rondas pelas esquadras, as incursões pelo Aleixo. Nããããããão!

Olha, Sara Ganim, congratulations, sim senhor. No fundo fico muito contente por ti. Mas mantém-te no anonimato, se faz favor. Não quero que os meus pais percebam o desgosto de filha que eu sou :(

06 março, 2012

C.S.I.ogurtes

Queixava-me eu, há coisa de 3 semanas, do cobarde roubo de iogurtes de que fui vítima, na própria empresa onde trabalho.
Um ultraje! Uma pessoa pensa que no mundo do trabalho são todos crescidos e, vai-se a ver, roubaram-me mais iogurtes numa semana de trabalho do que em dois anos de residências universitárias. O mundo está perdido, é o que vos digo.

Revoltada com a situação, ao terceiro iogurte roubado achei que era altura de enviar um e-mail furioso a toda a empresa.
O larápio guloso não se acusou, e eu agora tenho de aturar todos os dias (a sério, todos os dias, mais do que uma vez por dia) piadas de vários colegas sobre iogurtes. "então, já compraste mais iogurtes para mim?", "ai, que bom estava o teu iogurte de maracujá" (estou farta de dizer que os meus iogurtes eram de morango L. Casei Imunitass... só um desesperado rouba iogurtes de marca branca L. Casei Imunitass, aquilo nem sequer era bom).

Mas hoje senti que o meu problema estava a ter a merecida atenção, quando entrei numa das salas e vi no quadro a seguinte investigação:



"3- Sara mentiu e quer que lhe paguem os iogurtes". Bem esgalhada... Mas consegui rebater e eliminar da investigação essa hipótese manhosa.

Espero que o facínora de iogurtes alheios se acagasse e confesse tudo! As investigações continuarão. Até lá, olharei para todos lá na empresa como potenciais inimigos e levarei um iogurte por dia na mala, só para não correr riscos desnecessários.

04 março, 2012

Exército de reserva

Eu já evito comprar seja o que for nas lojas chinesas, porque acho que todos conhecemos o conceito de trabalho escravo e trabalho infantil e o porquê de os produtos chineses terem conquistado o mundo por serem tão estupidamente baratos. E não tendo poder de compra para ser cliente habitual de uma loja de Comércio Justo, fui voluntária numa loja. Mas nunca tinha feito a mesma associação de exploração para com os preços competitivos que as Amazons desta vida praticam.

Até que li este artigo. São 4 páginas, mas vale a pena perceber como são tratados os trabalhadores dos armazéns que recebem e embalam os produtos que compramos com um 'clic'. As pessoas são números que têm de ser maximizados a qualquer custo. Em troca, têm um emprego. E se um dos empregados acaba de ser pai e quer tirar o dia para ver mãe e bebé? Rua. E se quiser ir votar? Pois que sim, que deve votar, mas se for votar vai para a rua porque faltou ao trabalho. turnos de 10,5 horas (12h no Natal), supervisores que vos relembrar a toda a hora o quão maus vocês são porque estão abaixo dos objectivos. Não, não estou a falar da China: estes armazéns gigantes de trabalhadores temporários, escravizados e dispensáveis situam-se nos Estados Unidos.

Eu, que já fiz uma montanha de biscates para ganhar uns trocos, também sei o que é fazer trabalho mecânico e ser pressionada para o fazer o mais depressa possível. Sei o que é ter um contador no computador que conta os 25min de pausa do dia, sem desculpas. E sei o que é ter de estar de pé 8h por dia, ser revistada a cada saída do trabalho (mesmo para a pausa do almoço) e ter de receber ordens de gente bruta (dentro dos supermercados, a SONAE era de longe a pior a tratar o pessoal). Mas isto não é nada.

Se querem continuar a fazer bons negócios na Amazon e Companhia, de consciência tranquila, não leiam o artigo. A não ser que concordem com a máxima cada vez mais dominante que diz que "as pessoas têm é sorte por terem um trabalho", não devendo por isso queixar-se ou exigir melhores condições. Até porque para cada posto de trabalho, há um exército de reserva pronto para nos substituir.

http://motherjones.com/politics/2012/02/mac-mcclelland-free-online-shipping-warehouses-labor?page=1

14 fevereiro, 2012

Sou mãe de filhos

Aqui no escritório (não é na escola, não é na residência universitária, é no meu local de trabalho), já me desapareceram 3 iogurtes em pouco mais de uma semana. Trouxe um pack de 6 e o guloso ou a gulosa já comeu mais do que eu.

Não querem que odeie pessoas?

01 fevereiro, 2012

porra.

Uma em cada três pessoas da minha idade não tem trabalho. E aquelas duas que têm, muitas vezes têm vínculos laborais da treta.

Se por um lado me sinto incrivelmente sortuda por ter, desde o dia de hoje, um contrato honesto e legal (e seguro de saúde, meu deus, pela primeira vez na vida tenho um seguro de saúde, isto é fantástico para quem uma vez tentou marcar uma consulta no centro de saúde de Ermesinde e lhe disseram que tinha de esperar dois meses), por outro lado sei que daqui a um ano posso fazer parte daquela estatística e, pior, tenho amigos que já lá estão.

Não crescemos preparados para isto. E o pior é que aqueles senhores mais velhos que estão no governo parece que também não...

30 janeiro, 2012

Assinas mas é o c...

Ao contrário do que o título possa indicar (e todo este blogue, de uma forma geral),  hoje venho aqui postar coisas boas. E não vou resmungar sobre nadinha. Prometo!

Então aqui vai:

Depois de 7 ou 8 empresas de trabalho temporário,

depois de ano e meio a falsos recibos verdes,

e no pior ano de sempre da história, seja porque o mundo vai acabar, seja porque estamos a regredir em direitos sociais e Portugal é lixo e os mercados estão com uma depressão gananciosa nervosa e o desemprego está em alta e etc,

assinei hoje o meu primeiro contrato de trabalho a sério. Vou descontar para a reforma pela primeira vez na vida. (Sim, eu sei que quando for velha já não existem reformas, mas deixem-me mais a minha felicidade, ok?). E vou ter seguro de saúde. Quantas pessoas em Portugal, com 24 anos de idade, podem dizer que têm:

1- um trabalho na área em que estudaram (sobretudo quando a área é Letras)
2- um contrato de trabalho
3- um seguro de saúde?

Epah, até estou nervosa. Mas sobre que vou eu refilar agora? Com isto de ter contrato de trabalho perdi imenso material para resmungar. Enfim, nada é perfeito.


Ah, assim para acabar com mais uma boa notícia, decidi finalmente dizer ARRIVEDERCI à residência universitária. Afinal, sou uma gaja de 24 anos com um contrato de trabalho. Mereço ter um quarto só para mim e não dividir uma casa-de-banho com mais 13 miúdas. Mudo-me na 5ª feira, para uma casa junto à Av. 5 de Outubro, onde mora mais uma Sara. Vamos ver se aquele t2 não é demasiado pequeno para duas Saras (contando que ela não seja tão insuportável quanto eu, tudo correrá pelo melhor, e teremos todos os dias diálogos interessantíssimos, como: "Olá Sara!", "Olá Sara").


Gostei muito do primeiro mês de 2012. Se os Maias tiverem razão e o mundo acabar em Dezembro deste ano, acabo em grande.

11 janeiro, 2012

Oremos pela minha alma suja


Esta manhã, em vez de escrever notícias, estive a escrever um comunicado de imprensa sobre uma campanha publicitária da minha empresa.

Sou oficialmente uma vendida.

O desgosto de qualquer professor de jornalismo.

Vendi a alma ao diabo corporativo.



Um minuto de silêncio pela minha morte ética.

17 agosto, 2011

O mundo não é a preto e branco

É-nos tão fácil falar. É tão fácil criticar. Eu que o diga, que tenho um blogue a que recorro sempre que quero espingardar contra algo ou alguém. Na maioria das vezes estamos errados, porque na maioria das vezes só olhamos para um dos lados da história.

Hoje, no Jornal da Tarde, a SIC transmitiu uma peça que contava o drama de uma empreendedora de Guimarães, que queria aumentar a sua produção fabril de fiação (ou algo do género), mas não encontrava gente para trabalhar. O que não deixa de ser peculiar, numa zona como Guimarães, onde o desemprego é alto, precisamente porque tudo o que era fábrica fechou.

A patroa contava que apareceram algumas pessoas, enviadas pelo Centro de Emprego, e que arranjavam desculpas para não aceitar o lugar, ou que ao segundo dia deixavam de aparecer. Que era uma vergonha e que isso do subsídio de desemprego devia acabar, porque assim as pessoas não vão trabalhar.

De facto, é o que apetece dizer. Que diabo, estamos com 12% de desempregados e não aparece ninguém que queira trabalhar na fábrica da senhora.

O que a jornalista se esqueceu de perguntar foi quanto é que a senhora empreendedora oferecia de salário. Não é preciso ser brilhante para concluir que é o salário mínimo. A senhora não arranja ninguém. Será que já experimentou aumentar as condições salariais e ver se começam a chegar interessados? Calculo que não.

Conheço um senhor de 60 anos que recebe 1200€ de subsídio de desemprego. Já se sabe que, aos 60 anos, as ofertas de trabalho são próximas de zero. Mas o Centro de Emprego lá lhe arranjou uma entrevista. Era para ser comercial num stand de uma marca de automóveis de luxo. O que ofereciam? 480€ de salário + 35€ de ajudas de custo para gasolina, para atestar no depósito do tal carro da marca luxuosa que bebe como uma esponja. Nota: o comercial tinha de andar de cliente em cliente, a tentar vender os carros. O salário era capaz de dar para a gasolina, com alguma sorte.

Agora digam-me: quem, no seu perfeito juízo, troca um subsídio de desemprego de 1200€ pelo salário mínimo, de onde ainda vai ter de pagar a gasolina para trabalhar? As pessoas desempregadas continuam a ter responsabilidades. Continuam a ter uma casa para pagar e filhos para alimentar. Eu sei, é uma novidade chocante, mas é verdade. As responsabilidades não findam com a perda de emprego.

Gostava de perguntar à senhora empreendedora e a todos os que chamam 'parasitas' aos beneficiários do subsídio de desemprego (para o qual descontaram), o que fariam se estivessem nesta posição. Mas só aceito respostas sinceras, se não for incómodo.

04 agosto, 2011

Finanças, essas brincalhonas

Há um ano e dois meses que ansiava pelo dia em que ia pôr de lado, para sempre, o meu malogrado livro de (falsos) recibos verdes (que na verdade são azuis). Pois esse dia chegou!!!!!! Urra!!! Viva o fim do meu livro de recibos verdes!!!!! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhwgsihsçwoisj!!!

...

Emiti, agora mesmo, o meu primeiro recibo verde electrónico (mesmo online, continua a ser azul. Que ninguém ponha em causa o humor das Finanças, sempre a brincar com o pessoal).
Pensei que não seria abrangida pela obrigatoriedade de emitir o recibo electrónico, uma vez que não atinjo os 10 mil euros anuais. Mas as Finanças, essas danadas para a brincadeira, são também muito democráticas: quem não atinge esse valor pode continuar a passar os recibos em papel. Só que não pode ser um recibo das dezenas que me sobram no livro que eu já tenho. Não! Têm de ser outros, que teria de ir pedir às Finanças, e em que cada um custa 10 cêntimos. É de louvar a compreensão do Ministério das Finanças por quem ainda tem um livro para acabar. Deu-se ao trabalho de criar novos recibos a 10 cêntimos cada um, o que significa praticamente obrigar o pessoal a tratar da coisa online.

A pièce de résistence? Depois de emitir o recibo verde online, tenho de o imprimir para entregar à entidade patronal.


Aplaudo de pé a maneira como o nosso governo gasta o seu tempo. A pensar em esquemas brutais que não servem de nada, em vez de pensarem em como combater os esquemas brutais em que são colocadas milhares de pessoas a falsos recibos verdes. Andamos a brincar, não é? Como eu gostava de retribuir a brincadeira. Por exemplo com uma espingarda.

18 maio, 2011

Porque é que pensar é uma chatice

... porque quando me dá para pensar um bocadinho, lembro-me que desde que trabalho que a minha qualidade de vida decresceu substancialmente.

E que não tenho perspectivas de a ver melhorada.

É lixado quando passamos 8h por dia a trabalhar e nem uma casa conseguimos pagar. É frustrante. É, acho posso dizer, revoltante, lembrar que se estivesse em casa sem nada para fazer vivia melhor do que vivo agora.

Mas examinar a situação laboral de merda que se vive hoje em dia não é problema. Debatamos os bancos, o aumento das reformas (e nunca a necessidade de criar condições para que se aumentem os bebés), essas coisas mais fundamentais.

11 março, 2011

O governo quer obrigar-me a mentir. O que fazer?

O jornal i avisa:  Censos "escondem" falsos recibos verdes


O governo acha que, como nos mente todos os dias, pode continuar a mentir-nos obrigando-nos a responder mentiras. No fim dos Censos, contabilizam um número ridículo de trabalhadores a recibo verde e congratular-se-ão, ao mesmo tempo que, aposto, irão desvalorizar manifestações como a de amanhã - em que afinal vou participar.

Espectacular.

Explicando melhor:
(...) na opção "qual o modo como exerce a profissão indicada" consta a seguinte consideração que deverá ser levada em conta pelo inquiridor dos Censos: "Se trabalha a recibos verdes mas tem um local de trabalho fixo dentro de uma empresa, subordinação hierárquica efectiva e um horário de trabalho definido, deve assinalar a opção trabalhador por conta de outrem." Estas características são as de um trabalhador que devia ter um vínculo permanente, ou seja, um falso recibo verde, acusou a deputada Rita Rato.

É esconder completamente e impedir que se saiba a realidade dos falsos recibos verdes. Quando saírem os resultados dos censos vai dizer-se que existem x trabalhadores por conta de outrem, quando o que sabemos, à partida, é que neste miolo estarão milhares de falsos recibos verdes identificados como trabalhadores por conta de outrem", criticou a deputada comunista. "É um escândalo estatístico que se queira manipular os dados que escondem e impedem que se saiba a realidade dos falsos recibos verdes", acrescentou. 


Queiram perdoar, mas não quero seguir o exemplo que vem de cima e mentir.

Se eu acrescentar uma opção chamada "falso recibo verde", o meu Censo fica anulado? É que é isso mesmo que vou fazer até encontrar outra solução. Revoltante...

08 fevereiro, 2011

Ainda bem que não sou a única parva. Há mais a fazer-me companhia

Os parvos saíram todos da casca. Finalmente uma música volta a despertar este sentimento e esta vontade de agir neste povo amorfo e acomodado à sua condição, seja ela excelente ou péssima (é para estes extremos que caminhamos cada vez mais).

Primeiro foram os parvos retratados na música Que Parva Que Sou. Finalmente alguém colocou numa música aquilo que eles (eu) sentem (sentimos). Não, não descobrimos isto só agora. Quem parece só ter descoberto que este problema existe são os Josés Manueis Fernandes desta vida. Aqueles que falam e publicam bonito, mas que na hora de contratar e pagar fazem de nós parvos.

Também não podiam faltar as pessoas que dão outra interpretação à letra da música, tomando-a pelo básico: que a música desincentiva ao estudo. Eu, que sou uma das parvas que continua a estudar, interpreto-a como um recado aos mais bem instalados: essa condição não vos dá o direito de espezinhar a geração dos vossos filhos e dos vossos netos. Acordem para a vida! Não é uma música que desincentiva ao estudo, é toda uma situação de humilhação a que a geração mais bem prepara de sempre é sujeita. Eu tenho amigas a trabalhar em supermercados. Será que essas amigas vão dizer aos filhos a vida inteira para eles estudarem para serem alguém, como eu ouvi? Mas eu compreendo. É mais fácil culpar a música.

Eis que finalmente surge uma análise feita por um de nós, parvos. Aqueles que, efectivamente, sabem do que falam, porque o vivem diariamente. Sem paternalismos, sem apelos estúpidos de ascensão rápida na carreira só porque se tem um canudo. E sem dar cavaco àqueles bem instalados que choram lágrimas de crocodilo por uma geração que eles ajudam a enterrar todos os dias.

O autor chama-se Rui Pelejão, não faço a mínima ideia quem seja, mas escreveu um artigo intitulado A hipocrisia dos cotas que se comovem com a música dos Deolinda

Aconselho vivamente a leitura deste artigo. Se eu escrevesse um artigo a analisar este movimento de prós e de contras à canção dos Deolinda, seria qualquer coisa assim do género, mas em pior.

Aqui fica novamente: http://www.a23online.com/2011/02/07/a-hipocrisia-dos-cotas-que-se-comovem-com-a-musica-dos-deolinda/

01 fevereiro, 2011

Olhe, era uma revolução, faxavor

Ora bem, fiquei sem bolsa e agora estou com febre. É a altura ideal para fazer um post comprido e onde se reclama muito.

Hoje um colega de profissão (e todos sabem como isto de ser recém-licenciado em jornalismo é coisa animadora) enviou-me uma notícia do Expresso que dizia o seguinte:

FMI: jovens enfrentarão desemprego toda a vida

O diretor geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) fala numa "geração perdida" no desemprego. Futuro será marcado por maior protecionismo comercial e agitação social violenta.


"Há uma geração perdida de jovens destinados a sofrer toda a vida com o agravamento do desemprego e das condições sociais", afirmou o diretor geral do Fundo Monetário Internacional , Dominique Strauss-Kahn, citado pela Reuters.


Para quem acaba de saber que afinal não vai ter contrato e vai manter-se a recibo verde (embora tenha sido aumentada), perdeu a bolsa a meio de um mestrado no ano em que tem de pagar 2 mil euros de propinas mais alojamento e, ao início da manhã, ficou a saber que as regras da empresa no que toca a férias vão alterar-se e que devia era sentir-me abençoada por a entidade patronal não descontar os dias de férias no salário de quem está a recibos verdes, está claro que me apeteceu logo dar puns de alegria com mais boas perspectivas.

Mas "que parva que sou". Todos os caminhos vão dar à desistência do mestrado e ao regresso à "casinha dos pais", mas eu teimo em teimar. Eu não devo ser um calhau com dois olhos, eu sou o Stevie Wonder das pedras.

A minha vida ficou logo melhor quando soube que, no Largo de Camões, haveria uma concentração de apoiantes à revolução que está a decorrer no Egipto. E pus-me a pensar (pouco, dada a burrice por mim demonstrada nas linhas anteriores):

O que é que o pessoal reivindica em países como Egipto ou Argélia? Vamos reflectir em conjunto, caro leitor solitário deste blog:
  • Fim de regime corrupto. Alguém aqui se identifica com esta exigência? Se me dão licença, eu sim.
  • Melhores condições de vida. Anyone? Será de mim ou andamos a perder direitos? Será de mim ou a China já esteve mais longe do nosso código laboral? Deve ser de mim. O desempregado ainda nem tem de pagar indemnização ao patrão e eu aqui com lamurias de menina rica. Pfff!
  • Regime apegado ao poder. Aqui não. Aqui, felizmente temos tido ao longo de 37 anos muita rotatividade. Parece o bailinho da Madeira: ora danço eu, ora danças tu. Ora roubo eu, ora roubas tu. Ora emprego eu o menino da JSD, ora empregas tu a jovem promessa do PS. Ora temos candidatos pouco capazes às eleições, ora temos de levar com eles na mesma (um não no boletim de voto era uma bonita iniciativa). É muito bom ter direito a votar! Mas o direito ficou-se por aí. É pena, porque era uma ideia com muito potencial
  • Censura. Ui, aqui em Portugal, país civilizado, isso não. Aqui eu posso escrever que os nossos governantes são uma cambada de gatunos e chupistas. Posso ler num jornal que o Sócrates não sabe desenhar casas e que faz compras no Freepor'. Mas será que posso escrever aqui os nomes dos patrões que exploram empregados anos a fio a falsos recibos verdes são uns gatunos e uns chupistas se eu for uma dessas pessoas a trabalhar para esses patrões? E se eu trabalhar no Sol, será que posso dizer que o José Eduardo dos Santos é um tirano ou que o director do sol deve estar cheché? Poder até posso, mas depois sofro as consequências não é? É a mesma coisa no Egipto. Eles também podem muita coisa, mas depois habilitam-se a levar uma traulitada física. Aqui somos levados psicologicamente. Censuras diferentes, a merda é a mesma.
Não me entendam mal. Vamos todos participar nos movimentos de apoio aos egípcios, aos tunisinos, aos argelinos, aos marroquinos, aos iranianos (que devem estar para breve, espero). Mas lembrem-se de olhar cá para dentro também. Se não saímos todos à rua, num momento propício como este, com a indignação legítima que temos guardado aqui dentro, e quando até temos, pelo menos os jovens, uma canção para entoar da autoria dos Deolinda, não sei quando é que vamos sair. E isto é pior do que viver num regime opressor: aqui podemos sair, mas escolhemos simplesmente não nos darmos ao trabalho.

07 janeiro, 2011

Parece que afinal ganho acima da média

Queria ter comentado esta notícia ontem, mas por causa da entrega de um trabalho sobre o facto de a União Europeia querer brincar aos exércitos, chega cá com um dia de atraso.

A notícia fez furor, e não era para menos, o que é sintomático da quantidade de gente a recibos verdes que por aí anda a fazer-me companhia:

Recibos verdes. Quem ganha mil euros passa a receber apenas 598 

Jovens a recibo verde vão pagar mais para a segurança social. Taxa passa de 24,6% para 29,6%.

O novo código contributivo está a por os jovens que ganham a recibo verde à beira de um ataque de nervos. Quem ganhe 1000 euros mensais, passa a ter de entregar 21,5% à cabeça aos cofres do Estado por conta do IRS, e 29,6% à Segurança Social. 

Contas feitas, significa que a partir deste mês, quem ganhe aquele valor através de recibo verde leva para casa qualquer coisa como 598 euros, ao invés dos anteriores 621 euros. Outra das inovações do novo código contributivo é que deixa de permitir que seja o próprio trabalhador independente a decidir o que quer descontar para a segurança social. A taxa passa a ser única, de 29,6%, ao invés de oscilar entre os 24,6% do regime obrigatório e os 32% do regime alargado que vigorou até 2010. 
(...)

O mercado de trabalho conta hoje com cerca de um milhão de pessoas a recibo verde, entre trabalhadores precários e profissionais independentes, onde se incluem médicos e advogados mas também desempregados de longa duração que voltam a trabalhar precariamente e sobretudo jovens, incluindo os que saem das universidades.


Primeiro comentário óbvio: isto é uma filha da putice. Sobretudo porque isto é um sistema discriminatório (não vale a pena desenvolver acerca do tema dos recibos verdes e, sobretudo, dos falsos recibos verdes, por esta altura já toda a gente tem a sua opinião.

Segundo comentário: se uma pessoa não lê a notícia até ao fim, pode ficar a pensar que só os jovens é que vão ser prejudicados. Não sei quem é que disse à jornalista que os jovens estão à beira de um ataque de nervos, mas quem lhe disse ter-se-á esquecido de dizer que há muitos milhares de pessoas a recibos verdes durante toda uma vida (que entretanto deixaram de ser jovens, mas que também têm de pagar impostos pesados dos quais pouco vêem). Mais: a jornalista acha mesmo que são os jovens a recibos verdes a grande fatia que ganha mil euros? Essa coisa dos jovens mileuristas é mais ali para o lado dos nuestros hermanos.

Por fim, só lá para Maio é que me volto a queixar do meu salário. É que acabo de perceber que ganho quase tanto quanto alguém que tenha 1000 euros de salário. E eu ganho o salário mínimo.

Bendito 1º ano de isenção... Maldito sistema discriminatório.

04 janeiro, 2011

Estou a ver qual o "novo conceito de jornalismo"...

Foi colocado ontem, no carga de trabalhos, o site com mais anúncios de chulanço a licenciados em jornalismo deste país, o seguinte anúncio:

procuramos jornalistas (estágio curricular)

Estamos a desenvolver um novo conceito de jornalismo online que será lançado já no final deste mês.
Por isso, precisamos de pessoas/recém-licenciados/universitários que tenham o bichinho do jornalismo e que estejam dispostos a fazer um estágio-curricular online!
Qual é o perfil que procuramos?!
Pessoas dinâmicas, extrovertidas, que escrevam muito mas muito bem e que sejam fluentes (ESCRITO E FALADO) em:
1. português
2. espanhol
3. brasileiro
4. inglês
5. francês
És fluente em alguma destas línguas??
SIM??!
Então é de ti que precisamos!!


Estou muito tentada a responder a este anúncio. Em primeiro lugar porque não pagam nada (para quem não está familiarizado com o conceito de "estágio curricular", confiem em mim). Em segundo lugar, porque preencho alguns dos critérios necessários. Estou mesmo confiante que preencho mais do que a média, senão vejamos: 
 
1-sou uma pessoa, e também sou licenciada em jornalismo, ou seja, estou em clara vantagem face a quem é só uma pessoa.
 
2-Sou fluente em duas dessas línguas. Claro que pesco de espanhol e de inglês (no francês sou fraquinha, embora compense no italiano), mas sou bilingue em português e em brasileiro. Domino as duas línguas, sobretudo agora que devo começar a escrever pelo acordo ortográfico.

Vou mandar já o CV e rezar para que seja a escolhida. Falou? Legal, então.