Acabei de ver um programa do Dr. Phil, cujo tema era aquilo que expomos sobre a nossa vida pessoal em redes sociais, como o Facebook ou o Myspace.
O programa começou muito mal. Comecei a ver a parte em que a convidada do Dr. Phil era a criadora de um
grupo no Facebook onde qualquer rapariga pode publicar fotos suas e das amigas bêbedas. Quase sem roupa, caídas no chão, enfim, quanto mais degradante for a foto das protagonistas, melhor.
Tentando perceber-se o objectivo, a criadora do site procura argumentar que, não sendo uma forma de luta pelo feminismo, a ideia é mostrar que as raparigas também se divertem como os rapazes e que também o podem mostrar ao mundo [e, cá entre nós, apesar de qualquer pessoa que tenha miolos perceber que é igualmente mau para homens ou mulheres, a sociedade ainda tolera melhor estes exibicionismos masculinos].
Como se não bastasse a senhora não se saber defender muito bem, o Dr. Phil também sabia encaminha-la para onde queria, mais a sua convidada que achava ridícula toda aquela exposição pública que as mulheres fazem naquele site. O que até compreendo.
Não compreendo é o porquê de irem entrevistar homens e lhes perguntarem o que é que eles acham de tudo isto:
"degradante, mostram que são umas galdérias e, por isso, também merecem ser tratadas como galdérias". Mas que argumentação de peso foram buscar! Os homens acham feio, meninas. Toca a tirar isso e a elevar esse comportamento, senão vão ser tratadas como galdérias pelos namorados que arranjarem!
Isto faz-me lembrar aqueles anúncios anti-celulite, espalhados em outdoors, cujo mote era: "
Os homens não gostam de celulite". Absolutamente brilhante!...
A partir do momento em que o tema "publicar fotos degradantes na net" adquire um carácter sexista num programa orientado por um psicólogo, penso que não é preciso dizer mais nada a quem apregoa que o machismo é coisa do passado e que as mulheres que ainda se queixam de desigualdade são umas ingratas. Não ficou explícito se as fotos de homens nus a mostrarem a sua masculinidade, ou de tronco nu todos transpirados agarrados a 2 ou 3 garrafas de alcool e a vomitarem também são "inapropriadas". A esmagadora maioria dirá que sim, que também é, mas que ninguém me diga que a sociedade não tolera melhor quando os protagonistas têm uma pilinha.
No essencial, o programa debateu um tema interessante:
a vida privada que publicamos online deve afectar o nosso futuro profissional?Quem é que, nos dias de hoje, não pesquisa na internet pela empresa na qual poderá estar interessado em trabalhar, ou no funcionário que se poderá vir a contratar?
Um dos convidados do Dr. Phil admitiu que, ao seleccionar pessoas para uma futura entrevista de trabalho, pesquisou os seus nomes na internet e excluiu um jovem com bom currículo porque este se definia no facebook como alguém que gosta de "fumar uns charros com os amigos".
A mayor do Michigan tinha, no seu facebook, uma foto em lingerie, e a população está revoltada.
Se coisas como estas não afectam a forma como trabalhamos, há cargos onde a imagem conta muito. Ninguém vai respeitar a senhora que se expõe em lingerie para quem quiser ver, ou um professor primário que, na sua página do Myspace, ostenta a sua banda de garagem adoradora do demónio.
Mas se há entidades empregadoras que exigem que a nossa vida pessoal não afecte a vida profissional, é legítimo que esses mesmos senhores eliminem ou despeçam funcionários só porque estes têm uma foto menos própria da sua vida
pessoal na internet?