23 setembro, 2012

Estará a falar do governo?

Pertenço a um país onde há, neste momento, uma corrida louca por emprego, porque há cerca de 15% de desempregados que se sujeitam a condições cada vez mais baixas de trabalho por culpa da normal lei da oferta e da procura (e mesmo assim há muitos que não têm qualquer hipótese de ainda vir a arranjar um).

Pertenço a um país onde todos os dias trabalham milhares de estagiários licenciados sem ganhar um tostão.

Pertenço a uma geração que está a emigrar em peso em busca de melhores condições de trabalho, de vida.

Pertenço a um país que a OCDE classifica como aquele onde se trabalham mais horas na Europa.

Pertenço a um país onde a maioria, apesar de trabalhar acima da média, ganha bem abaixo da média europeia. Pertenço a um país onde o salário mínimo é de 485 euros. É quanto custa alugar um t1. O preço mínimo de um infantário é de 300€. Ir ao supermercado em Portugal custa tanto como ir ao supermercado em quase qualquer país europeu. Repito: pertenço a um país onde mais de meio milhão de portugueses ganha 485 euros brutos por mês, e aos quais este governo quis, recentemente, diminuir esse valor para uns excêntricos 397 euros mensais (tentando depois amenizar a medida face aos protestos).

Pertenço a um país que pensa que mais produtividade se resolve com mais horas de trabalho, ainda por cima por menos dinheiro. Pertenço a um país onde os patrões e os decisores podiam ter aproveitado muito dinheiro europeu para modernizações necessárias ao aumento da produtividade, mas que preferiram ser mais criativos com esses montantes.

Feito o retrato do meu país, eu gostava de saber a que país se refere o ministro Miguel Macedo quando hoje disse que "não podemos ser um país de muitas cigarras e poucas formigas". Recomendo-vos que ouçam aqui as palavras que a TSF gravou, para que depois não venham os chorosos falar em descontextualização e manipulação. Ouçam, que tem mais impacto.

Por fim, pertenço a um país governado pelo maior grupo de imbecis frios e ignorantes sobre a sua própria realidade de que há memória. Pertenço a um país onde os governantes ganham muito acima da média e têm todos os subsídios e mordomias imagináveis, independentemente dos resultados que obtêm com a sua governação, e que em pleno clima de contestação social e austeridade dura, nos vêm dar lições de moral chamando a maioria dos portugueses de cigarras preguiçosas.

A frase dele faria todo o sentido se em vez de falar em "muitas cigarras", tivesse falado em poucas cigarras, a minoria das cigarras poderosas que destrói a vida das muitas formigas. A minoria das cigarras que quis e quer "gastar mais e durante muito tempo do que aquilo que temos para gastar. E depois, por via disso, sermos todos obrigados a pagar uma factura que subiu muito além do que podia ser razoável".

No fundo, fico contente. É mais uma machadada na paciência dos portugueses. É mais um motivo que leva a população a chamar todos os políticos de gatunos e mentecaptos. É mais uma razão para nos questionarmos seriamente sobre que rumo dar à democracia, um sistema cada vez mais viciado e com mais defeitos, mas que temos de saber melhorar urgentemente enquanto não surge um melhor, que nos permita poder eleger gente capaz e honesta, ao invés de andarmos há anos a votar "no menos mau" e a levar com esta corja de idiotas.

Chega!