24 julho, 2012

Filho meu não vai andar na má vida dos estudos

Obrigada governo, por me fazeres perceber, aos 25 anos, uma história que o meu pai me contava em criança.

Dizia ele - e ainda diz às vezes, com orgulho, coitado - que, quando ia à reunião de pais na minha escola primária, o meu professor lhe dizia: "A Sara vai longe". E o meu pai, que tem a 4ª classe, ficava de peito inchado, a achar que a inteligência da catraia ia dar em alguma coisa boa. Aposto que até já sonhava em viver acima das suas possibilidades, com direito a férias em Tenerife e a conduzir um carro com menos de 10 anos, com direcção assistida e tudo. Luxos.

No entanto, há duas coisas que se perderam pelo caminho desde os anos 90. A primeira foi a minha inteligência (possivelmente apanhada pelo Relvas, o meio-fundista das licenciaturas). A segunda foi aquela teoria de que o estudo conduz a melhores condições de vida pessoais e ao enriquecimento do país.

Ora, nunca Portugal teve gente tão qualificada... E veja-se o nosso estado miserável. A conclusão é simples: há que voltar a deseducar esta gente letrada chata que reivindica direitos e mais umas mariquices como justiça, equidade e distribuição justa de sacrifícios. É por causa destes malandros que cada vez estamos piores.
Felizmente, o governo já começou a tratar disso, e Nuno Crato continua a trabalhar no encerramento de escolas. Desta vez encerrou 239 escolas primárias.

Assim como assim (sempre quis usar esta expressão), até o IEFP já nos mostra que, actualmente, profissões que exigem menos formação são mais bem pagas do que os quadros qualificados. Ahhh, bendito "programa estímulo", que estimula, por exemplo, arquitectos com mestrado, carta e viatura própria e que sabem falar duas línguas estrangeiras a trabalhar das 09h30 às 19h30 por 500€ mensais!


Incentivo generoso promovido pelo programa estimulol. Perdão, programa estímulo.

Agora percebo aquela história de eu ir longe. O Professor Manuel, o melhor professor que uma criança pôde ter, era um visionário em 1994. O meu pai é que não deve ter percebido. Pensou que o ir longe era no sentido de ter uma vida promissora, melhor que a dele e que a dos meus avós. A evolução natural em qualquer país evoluído. 

Mas não. Ele queria referir-se à emigração. "A Sara vai longe", que é como quem diz, vai para Angola, para o Canadá ou para o Brasil procurar trabalho a ver se tem dinheiro para comer e pagar a renda. Vai para bem longe da família e dos amigos. "A Sara vai longe" porque, com uma licenciatura na área das letras, só vai ter dinheiro para morar nos subúrbios das grandes cidades onde vai mendigar trabalho. E portanto tem de ir para bem longe do centro e apanhar dois autocarros mais o comboio suburbano.
"A Sara vai longe". Vai muito longe do caminho que os pais pensaram para ela, apesar de ela até ter feito tudo quanto lhe foi pedido. Esbarrou agora na tese do mestrado. 
Valerá a pena?

2 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Vale, apesar de tudo.

kithara azul disse...

Divertiu-me bastante este post :) e contudo tão real, tão certeiro...