13 janeiro, 2010

Não podia ter nascido uma década mais cedo?

O título do artigo é: A geração que está agora com 16-25 anos estará perdida? 

 Eu podia apostar que não. Que isto é uma daquelas constatações do tipo inquérito sazonal ao comerciante:
-Então, diga aqui para a reportagem que tal estão as vendas este ano?
-Ui, muito mal, não se vende nada, o ano passado ainda se vendia qualquer coisinha, mas este ano é o pior de sempre, o que vai ser de mim, ai comprem senão eu morro, ARGHHHHHHH!!!!!!!.



Ou seja, as gerações mais velhas olham sempre para as gerações mais novas como um bocado miseráveis, perdidas no sentido de serem muito piores e não terem valores. Não creio que a minha geração esteja perdida segundo esta definição, mas sim perdida no sentido de desorientados. E desesperançados, também.
Falo na primeira pessoa do plural mas gostaria de excluir da minha linha de pensamento os estudantes de farmácia, medicina e engenharia, bem como os meninos que já têm emprego garantido antes de terem o canudo.


Dito isto, deixo o artigo falar por mim, porque me serve como uma luva. Se calhar a culpa foi minha. Já me tinham avisado que jornalismo não tinha saídas profissionais. Mas eu sou teimosa e achei que comigo ia ser diferente, que eu ia estudar para ser boa e alguém havia de pegar em mim. E de facto há quem queira pegar em mim, em nós... não quer é pagar por isso. E quando quer (confesso que ainda não encontrei nenhum que quisesse senão tinha-me agarrado), é mal e porcamente, a recibos verdes, sem direitos nenhuns, que já muito fazem eles em dar-nos a honra de ter um trabalho que não seja num call center ou num supermercado. 
Yupiii, já passei pelos dois!!!!
...


"Com a recessão, por ser tão difícil encontrar emprego e segurá-lo, uma geração inteira está desesperançada. Se o país não responder, toda ela se perderá, avisam os autores desse estudo encomendado pela organização não governamental Prince"s Trust.

...É a geração mais escolarizada de sempre. No ano lectivo 2007-2008, estavam inscritos no ensino superior 377 mil alunos - mais 20 por cento do que em 1995-1996. No final, as universidades mandaram para o mercado mais de 83 mil diplomados - mais 16 por cento do que no ano anterior. Apesar disto, "as gerações anteriores entraram mais facilmente no mercado de trabalho", avalia Carlos Gonçalves, que tem estudado a empregabilidade dos universitários. Agora demora mais. E quem fura, amiúde, fá-lo através de contratos a termo certo ou de recibos verdes. 
O exemplo típico é o do licenciado no call center.

Nem só os universitários vivem a calamidade. Os menos qualificados também - todos os dias, empresas a falir, fábricas a fechar portas. A transição do mundo juvenil para o mundo adulto alterou-se. Os jovens deixam-se estar em casa dos pais. Adiam compromissos - como comprar casa ou constituir família, precisa Virgínia Ferreira. Por toda a parte se vê desejar um trabalho precário. Não aquele em vez de outro: aquele porque não há outro. "À minha volta está tudo deprimido por não ter expectativas e por ter de conviver com um emprego insatisfatório", desabafa Sara Gamito, do movimento Precários Inflexíveis. "Ficam com os pés e as mãos atados e vão perdendo o alento."


Queria agora dedicar uma frase a todos aqueles que diariamente exploram recém-licenciados pagando-lhes nada pelo seu trabalho:


"Sem salário, há um recuo ligado até à dignidade."

5 comentários:

Cirrus disse...

Isto é de facto geracional. Quando se diz que esta geração está perdida, nada mais se está a dizer que não tenha sido dito antes. Até já houve a geração rasca, por isso... Fala-se de crise como se houvesse uma, como se alguma vez se tivesse ouvido falar de abastança ou abundância. Nada mudou. Nem para pior, nem para melhor. Eu não passei pelos call centers nem pelos supermercados. Passei pelas fábricas... Dá no mesmo. E se quis ver-me empregado, com o tal curso de engenharia que pensas que dá emprego imediato, já há 20 anos, há que fazer malas e ir trabalhar para o estrangeiro... Não, Sara, não são só os jornalistas.

Sara non c'e disse...

Cirrus, depende da engenharia. Conheço várias pessoas tanto da FEUP como do IST que não precisam procurar emprego: recebem e-mails com propostas, as consultoras vão buscá-los às próprias faculdades, os seus estágios são remunerados e eles têm realmente a hipótese de ficar após o estágio. Não compares a situação da engenharia com a do jornalismo e afins porque ela não é comparável... Não tenho nada contra a engenharia, tenho até em alta consideração quem estuda uma matéria que aos meus olhos é demasiado complicada e que eu nunca conseguiria fazer. O mérito é todo deles (e teu também, pelo que percebi).

Não me podes dizer também que há 20 anos grande parte das pessoas a trabalharem em supermercados era licenciada porque não era, Cirrus... Trabalhaste numa fábrica depois de teres acabado o curso de engenharia? Se sim, porque não conseguiste mesmo emprego na área em Portugal? Foste para o estrangeiro porque não havia mesmo emprego ou porque as condições no estrangeiro eram mais apelativas?

Do meu ponto de vista a situação há 20 anos não é comparável com a actual.

Algo de muito errado se passa num país onde não se tentam direccionar os alunos para as áreas que o país precisa. Ao contrário, cada vez há mais cursos de jornalismo a abrir.
Isto interessa a quem? Às estatísticas? Vale a pena ter licenciados só porque sim, para europeu ver? Às faculdades? Aos alunos não é certamente. Ao país também tenho algumas dúvidas.

Cirrus disse...

Claro que não são situações comparáveis. Mas já nesse tempo, as coisas não eram nada fáceis para recém-licenciados. Eu demorei seis meses a arranjar emprego e a empresa que me acolheu escolheu o meu destino. Bem, não estou arrependido.

O jornalismo é um caso em que, se não há mais mercado, se devia restringir novos recém-licenciados. Mas há tantas áreas onde são necessários tantos novos licenciados! E andam no desemprego, porque as empresas portuguesas, da mesma forma geridas que o talho ou mercearia da esquina, continuam a negar as suas necessidades de gente qualificada. Esse é o verdadeiro mal deste país que, ao contrário do que se pensa, tem ainda a mais baixa taxa de licenciados da Europa. E se os outros têm emprego e são desenvolvidos, nós, que somos o que somos (em comparação), devíamos ter muito mais.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Pessoalmente, confio até muito nos mais jovens. Só com outra mentalidade a governar o país pode mudar de rumo. O problema que vejo, é que os jovens que escolheram a política já estão tão envelhecidos como os que agora governam...

elsadossantos disse...

doeu-me uma pontinha do coração não ter lido aí algures o nome do ISEP... sim, porque lá também fazem isso... ou terei que te lembrar que também fui convidada?...

bom, facadas-nas-costas-que-me-dás à parte, só posso dizer que de facto não tenho muito por que me queixar tendo tirado um curso que ainda vai tendo alguma saída.

mas nem tudo são rosas. onde se está bem em engenharia civil, é em angola. e eu não ponho completamente de parte a hipótese de ir trabalhar pa lá, desde que não seja pa sempre...

sou muito apegada à minha casinha e associados, e isso vai-me custar muito, mas se tiver que ser, paciência...

tive sorte em arranjar este primeiro emprego, mas não conto com ele para todo o sempre...

*