29 novembro, 2011

25 novembro, 2011

Greve à companhia

Padeço do extremo oposto da solidão: estou sempre acompanhada.

Nunca tenho um único momento para mim. Eu, filha única de uma mãe divorciada que trabalhava de manhã à noite, nunca me importei com uma casa sozinha. Pelo contrário, sempre apreciei muito esse espaço (porque o contrabalançava com uma vida social normal, equilibrada). Ter de estar, desde há dois anos, 24 horas sobre 24 horas acompanhada por várias pessoas diferentes, até no meu quarto, é como estar numa prisão. E numa privação de silêncio. Desgasta-me. Molda-me. Vivo contrariada e isto há-de deixar alguma marca (acho que já deixou). Já nem este espaço é anónimo, já nem aqui estou sozinha, até na blogosfera tenho de medir assuntos e palavras.

Acho que a total ausência de solidão não aflige tanto (ênfase no tanto) quanto a própria solidão. Afinal de contas, somos bichos sociais.
Uns mais do que outros.


Faz este mês dois anos desde que me mudei para Lisboa.

Greve ou não greve, eis a questão

O dia de ontem foi uma bela vitória para o governo, para a austeridade e para os vendedores de balelas do tipo "os portugueses vivem acima das suas possibilidades".

Isto porque, em dia de greve geral, vi mais gente a discutir o conceito da greve do que propriamente os motivos que a originaram. Uns quantos a dizer orgulhosamente nos blogues ou no facebook que estão a trabalhar em dia de greve, não percebendo a ironia de tentar ridicularizar quem está a fazer greve com um post na internet em horário de trabalho.

Vivemos numa época profundamente estúpida. Uma época em que os juros da nossa dívida subiram a níveis astronómicos, em que temos de aplicar dietas para acalmar o deus mercado e que consistem em cortar pernas e braços em vez de gorduras. Como recompensa por essas dietas, os mercados respondem aumentando-nos a dívida porque - oh meu deus! - a dieta fez com que tenhamos perdido peso.
Eu sei, é uma frase pouco clara. Em homenagem aos tempos actuais. O que vale é que aprendemos a lição: apertamos na dieta e toca a cortar, sei lá, um rim, esperando que a mesma receita origine por milagre um resultado diferente.

Discute-se se a greve faz sentido. Vi, aliás, bastante gente da minha geração contra o conceito de greve, mais até do que contra esta greve em particular. Não discutem a (in)justiça dos cortes, a distribuição (in)justa dos sacrifícios, as responsabilidades dos nossos gestores e governantes. Não. Discutem se fazer greve faz sentido. O quê?!

E porque são pessoas da minha idade contra a greve? Por razões como "estamos em crise e o país precisa de produzir". Brutal. Deixemo-nos depenar à vontade, ao mesmo tempo que, diariamente, ouvimos mais um escândalo político e / ou económico. Deixemo-nos ficar quietinhos e calados, porque um dia de trabalho faz tanta faltinha ao país, pois temos é de produzir mais, com mais horário de trabalho e menos feriados e férias e  mais tretas dessas que atropelam direitos, fazendo-nos regredir na história.

Deixemo-nos ficar amestrados, que isso é que é bom. Assim é que vamos sair desta. Eu se fosse governante ou investidor e soubesse que o meu povo é assim tão submisso, carregava à bruta. Mas isso sou eu. "Isso da greve não adianta nada". Então e de que adianta não fazer, efectivamente, nada? Fico à espera da contribuição destes génios que adoram teorizar no conforto da sua cadeira.

Outra cena brutal que o governo conseguiu implantar (embora esta clivagem sempre tenha existido) foi a divisão entre público e privado. Para muitos, esta greve geral era a greve da função pública, que é, obviamente, a raiz de todos os nossos males. Qual foi a parte do "greve geral" que não perceberam? Não, esta não era uma greve para os funcionários públicos que saíram à rua porque não tiveram aumentos e não querem cortes nos subsídios. Mas isso não interessa. Deixa-me demonstrar publicamente toda a minha ignorância, mostrando-me contra uma coisa que eu nem compreendi. Meus amigos: para demonstrações públicas de ignorância estou cá eu e o meu blogue. Não gosto de concorrência.

É preocupante que nós, enquanto sociedade, sejamos tão fracos, tão facilmente manipuláveis. E é por isso que vamos continuar a comer e a calar medidas injustas, preguiçosas e que só pioram a nossa situação. Enquanto andarmos entretidos com isto, vamos empobrecendo. O que não deixa de nos levar ao tema da revolta, mas por outros caminhos: é que quando estivermos na miséria, levantamo-nos todos em bloco. Porque aí já não vamos ter nada a perder.

24 novembro, 2011

23 novembro, 2011

O milagre da privatização

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A partir do momento em que for privatizado um dos canais, e este entrar em funcionamento, a RTP deixará de ter publicidade comercial» anunciou o Ministro Miguel Relvas. Questionado pelos jornalistas como será financiada, perdendo direito à publicidade comercial, disse que " se vai manterá o mesmo valor de indemnização compensatória".


Aqui está um caso exemplar de como se cria uma necessidade com o discurso e depois dizer estar a resolver o problema mas deixando a razão da necessidade inalterável.
O problema da RTP, segundo os governantes, é o elevado custo que tem, mesmo com publicidade paga, para o governo em indemnizações compensatórias pelo serviço público prestado. A solução ra a privatização de um dos canais, mas logo os tubarões da SIC e TVI vieram dizer que mais concorrência na publicidade era inaceitável. A solução é boa, para eles, o novo canal terá publicidade como tinha a RTP, a SIC e a TVI não vêm a sua fatia do bolo publicitário ser repartida por mais uma canal e nós todos pagamos o funcionamento da RTP. Servem-se os interesses dos poderosos da comunicação social e vamos ficar a pagar o mesmo por um serviço bem pior. São os milagres que esta gente consegue fazer.
"


Retirado daqui

22 novembro, 2011

Voltem mirones, estão perdoados

Há exactamente uma semana, estava o completo caos entre os Restauradores e o Rossio. O autocarro não passava, os carros amontoavam-se, duas ambulâncias estavam estacionadas na berma e dezenas de pessoas rodeavam o grande acontecimento. O grande acontecimento era um homem a ser reanimado no passeio.
Um homem e dezenas de mirones a atrapalhar o trânsito e possivelmente os pobres profissionais do INEM. Limitei-me a suspirar e a pensar no quão parolo é o tuga que pára o que estava a fazer para ir espreitar a desgraça alheia.  É sempre assim com um acidente na estrada e sempre me irritou um bocado.

Até hoje.

E nem foi por nenhuma razão em especial que mudei de ideias. Foi só porque hoje, a caminho do trabalho, ia levando com vidros na cabeça. No caminho, de repente, ouvi o barulho de uma janela a partir-se (e eu ia de fones nos ouvidos) e à minha frente caíram vidros de um prédio. Hesitei, nao fossem cair mais vidros, fiquei a olhar para cima e avancei com calma, ao mesmo tempo que olhava para cima a ver se teria acontecido alguma coisa. Mas fui a única. As restantes pessoas que passavam comigo continuaram o seu trajecto. É de manhã, tudo o que importa é a pressa de chegar ao trabalho. Caíram vidros no chão? Normal. Podem cair mais no momento em que vou a passar? Logo se vê, que agora tenho pressa, e esta gente toda só me atrasa.

Só hoje percebi que se esta é a alternativa ao nosso voyeurismo, que prefiro gramar com dezenas de mirones a entupir ruas e passeios.
Tudo menos indiferença, por favor.

21 novembro, 2011

À atenção do Daffy Duque*

Oh meu deus, oh meu deus, que desgraça tão grande se abateu sobre o nosso país! Que João Duque nos salve desta má publicidade! Se isto chega aos mercados, se um turista inglês vê isto enquanto cozinha "fish and chips" no seu T1 em Oxford!

Então não é que o New York Times tem o desplante, a desfaçatez, de publicar este artigo?

(...)the Angola-Portugal moment has had no equal in its upfront plaintiveness.


“Angolan capital is very welcome,” Mr. Passos Coelho said in Luanda, the capital city. That may be an understatement: the former colony’s cash could be essential as Portugal is forced to sell off state-owned companies and shutter embassies after a $105 billion International Monetary Fund bailout this year.

(...)In Portugal, it is not uncommon to hear citizens grumble that the only people who can now afford the luxury shops in Lisbon are Angolans, or to be seated next to businesspeople who are seeking their fortunes in Angola.


(...) But government critics in Angola saw irony in Portugal’s quest. “The capital barely has any electricity,” said Rafael Marques de Morais, an anticorruption campaigner. “The basic infrastructures are not being done. And yet the president can say we are ready to bail out Portugal. It’s very offensive.”

“There is still the colonial mentality in Portugal,” he added. “They just want to extract resources and plunder the country. The only difference is this time they didn’t take them by force.”.




É anotar o nome desse Adam Nossiter e enviá-lo para jduque@iseg.utl.pt . Não podemos permitir que toda uma estratégia de embelezamento acerca do nosso paradisíaco Portugal caia por terra por causa dessa treta chamada jornalismo!



* Gostava muito de ter sido eu a inventar este genial nome, mas não. Circula pelas internets e não poderia ser mais adequado a este pupilo de Salazar.

17 novembro, 2011

O Vídeo que (me) interessa

Vou ignorar alegremente o vídeo feito pela Sábado e postar um vídeo bem mais giro. Pelo menos para mim.
É que pelo menos este vídeo é fácil de interpretar (porque não tem nada que saber). Bom, o da Sábado também, mas há quem não saiba interpretar vídeos. São mais graves respostas de falta de cultura geral ou total ausência de capacidade para interpretar um vídeo que nos colocam diante dos olhos?


Tudo isto para dizer que este fim-de-semana vou comprar bilhete para ir ver Mark Lanegan em Março (sim sim, nós geração das perguntas erradas, do Miguel Arcanjo, da geração à rasca, só nos sabemos queixar mas os cafés e os festivais estão cheios e blá blá blá geração perdida).
Haja alguma alegria na vida. E a música é das maiores preciosidades que tenho na minha.



P.S.: Porquê comprar já um bilhete para um concerto marcado para Março? Porque em Março o IVA para a cultura sobe. Cultura, essa coisa supérflua, esse desperdício de tempo. Ir a um concerto quando podíamos estar a trabalhar! O desplante.

o google não engana

Esta semana, duas pessoas vieram ter ao meu blog com a seguinte pesquisa:

"a sara é uma parva".




Não tenho nada a dizer em minha defesa.

16 novembro, 2011

China para totós

Vivemos tempos estúpidos. Gostava de arranjar uma palavra mais elaborada e começar este post com mais categoria, mas o tempo em que vivemos e os dirigentes que temos merecem palavras rascas, para condizer.

Ontem, descobrimos que João Duque, líder do grupo de trabalho para a definição do novo serviço público, defende que a informação veiculada pela RTP Internacional deve ser “filtrada” e “trabalhada” para passar a mensagem de promoção do país. Um tratamento da informação que, acrescentou, “não deve ser questionado”. “A bem da Nação”.


Para a RTP caseira, defende "o fim dos debates televisivos, argumentando que o canal público não tem de replicar aquilo que já é feito pelos canais privados".

Pelo meio ainda teve tempo para sugerir que os noticiários da RTP "têm falta de isenção". "Não podem ser as políticas a definir o que são os conteúdos, mas se estiver à frente de um órgão de comunicação social, com um tipo de orientação, escolhem-se notícias para seguir essa orientação. E os profissionais ao serviço desse meio de comunicação vão orientar o seu trabalho para este fim.”.
Brilhante. Todos os restantes noticiários são isentos - essa utopia - porque são privados, menos o da RTP, porque é público. Como sempre, público mau! privado bom! uga uga!

Mas esta gente é escolhida para estes grupos de trabalho fantoche pelos governantes que os portugueses elegeram. Há que dizê-lo: merecemos aturar estes pequenos salazares versão gananciosa, porque foi este o tipo de gente que há meses a maioria dos portugueses escolheu para o governo.

Bom era se só os nossos governantes fossem calhaus desprovidos de miolos. Não. Neste momento, a burrice domina a cena político-económica de uma maneira geral. Senão vejamos os nossos resultados no exame a que a Troika nos submeteu hoje.

Parece que fomos bons meninos e que estudamos a matéria! O próximo capítulo do programa é: baixar salários no privado / competir pelos baixos salários.
“A fim de melhorar a competitividade dos custos da mão-de-obra, os salários do sector privado deverão seguir o exemplo do sector público e aplicar reduções sustentadas”


Calma, ainda há mais e melhor: Portugal “Tem de competir com países em que os custos laborais são muito mais baixos, e isso consegue-se de duas formas: reduzindo salários e aumentando a eficiência”.

Temos de competir com que países? Com os gigantes China e Índia? A sério? Isto é mesmo o nosso objectivo actual?! Pensam alcançá-lo em que século? Quando tivermos gente a morrer à fome e a mendigar uma tigela de arroz chao chao?



É difícil acreditar que é esta gente que nos comanda. De um lado temos pessoas que querem controlar informação de um canal televisivo a bem da Nação. Do outro, gente que acha que Portugal tem capacidade para competir pela via do custo baixo. Estes neoliberais adoram criticar a China, mas querem ser a China de uma forma original: condições de vida miseráveis, sim, mas dadas pelos privados, que isso do público é muito perigoso.
Ou melhor, querem que outros países da treta como Portugal sejam a China. Depois, os senhores franceses, alemães, britânicos, etc. das Troikas regressam para os seus confortáveis países, onde nunca lhes passaria pela cabeça investir numa estratégia de competitividade pelos baixos salários e aumento da carga horária, e para cúmulo pedirem mais produtividade a quem vai ganhar menos. É tudo demasiado surreal. É tudo demasiado estúpido.

Vivemos tempos estúpidos.

Corra-se com esta gente. A bem da Nação.


15 novembro, 2011

O cão mordeu o homem

Continuando no tema automóvel, o Jornal de Negócios tinha ontem uma notícia impressionante, cujo título reza assim:

"Devia haver um incentivo ao consumo" automóvel

Oh meu deus, oh meu deus! Quem será o autor desta frase? O ministro da Economia? O secretário de Estado das Obras Públicas, Transportes e Comunicações?

Não, meus caros. A frase é do director da Audi. Estou chocada com este desejo estranho de um presidente de uma marca de automóveis. Onde já se viu, querer um incentivo ao uso do automóvel!

Ainda bem que o jornalista não deixou passar esta. Espalhem a notícia, que isto contado ninguém acredita.

13 novembro, 2011

Algum museu precisa de uma carta de condução para exposição?

- Mãe, posso ir eu buscar a avó?
- Com esta chuva/sol/a esta hora/com este trânsito?
...

Note-se que a minha avó mora a 10 minutos a pé de minha casa.

Se ainda não têm a carta e querem tirá-la, certifiquem-se que vão poder tocar num carro depois. É que estar dois anos sem conduzir gera medo e insegurança no infeliz encartado. Sobretudo quando a confiança que lhe dão é a descrita neste post.

08 novembro, 2011

Arrivederci, Berlusconi

O dia em que se perspectiva a demissão de Silvio Berlusconi do cargo de Primeiro-Ministro de Itália poderia ser um dia feliz para a bota. Só não é porque Berlusconi esteve no poder de 1994 a 1995, de 2001 a 2006 e foi reeleito em 2008. Anos demais. E que deixam mazelas num país pelo qual sou apaixonada.

A Itália caminha hoje para uma situação aflitiva que por cá já conhecemos e o seu papel no mundo tem vindo a diminuir. Hoje ouvimos falar da Itália porque Berlusconi - um bon vivant com tiques de machista, fascista e mafioso - é apanhado nos mais diversos escândalos. A belíssima língua italiana vai ganhando novos termos como "bunga bunga". Hoje os documentários sobre Itália mostram-nos uma cultura demasiado presa à televisão, com uma programação feita à imagem do senhor media que Silvio Berlusconi foi e continua a ser, apesar da posição política que ocupa.


Basta de Silvio Berlusconi, escrevia a The Economist em 2006. Hoje volta-se a dizer o mesmo. Aos 75 anos, só a idade e a saúde o afastarão um dia de tentar voltar ao poder. Que os deuses romanos tenham pena de Itália e não permitam que isso aconteça.

Dia de chuva é

...dia de odiar a estúpida da calçada portuguesa.

(quem anda a pé percebe-me)

03 novembro, 2011

Pausa para balanço

Hoje lembrei-me que a Grécia foi o berço da democracia;

Lembrei-me que foi só há 66 anos que a Alemanha perdeu a sua segunda guerra mundial (coisa que, dadas as atitudes recentes, já esqueceu);

Lembrei-me que a União Europeia começa mesmo com a palavra "União";

Constatei que Sarkozy só tem 1,65m e que pôr-se em bicos de pés é uma prática que parece ter adoptado para todas as atitudes da sua vida;

Concluí que esta pausa para balanço é inútil porque eu não sou eleitora nem da Grécia, nem da Alemanha, nem da França, e que Portugal na União Europeia manda tanto quanto eu na blogosfera.

01 novembro, 2011

shiny respectful people

Dois meses de residência nova já me dão a segurança suficiente para poder escrever aqui coisas bonitas sem me arrepender no dia seguinte.

Afinal há mais gente como eu. Gente que não gosta de viver numa pocilga, que não rouba comida aos outros e que não faz barulho de madrugada porque sabe que vai incomodar as outras pessoas. É uma cena brutal, isto de contactar com garotada que respeita e gosta de ser respeitada. Posso até dizer que, nesta casa de 13 raparigas, eu sou uma rebelde, pois nem sempre arrumo a minha louça e desafiei as regras ao querer usar o secador na casa de banho a horas impróprias da manhã para fazer barulho (9h!).

Passei do 80 para o 8, mas com tanta gente numa casa só o 8 funciona. Depois de ano e meio de uma experiência horrível, de viver no caos, nesta residência posso quase dizer que sou feliz. Só não digo que sou mesmo feliz porque tenho de partilhar o quarto e porque há formigas em todo o lado. E porque também só há uma banheira para 13 gajas, o que me impede de demorar os meus 45 minutos na casa de banho. Que saudades.

Note-se que isto tem contribuído para que eu tenha deixado de verbalizar tantas vezes a minha frase predilecta "odeio pessoas". Agora uso-a mais no metro, ou para comentar as notícias diárias do mundo da política e da economia portuguesas.
(Tinha de terminar o posto com uma referência a cair para o negativismo. Não quero que se pense que estou a afrouxar, aqui a demonstrar simpatia pelas minhas colegas de casa e a falar em civismo e felicidade).