A peripécia com os Mão Morta, que me fez ganhar um buraco na perna direita, deu origem a uma bela sessão no Hospital de Valongo.
Domingo. 34 graus à sombra. Parece-me o dia ideal para ir a um hospital sem ter de ficar horas à espera que 303894843 pessoas sejam atendidas. Estive lá duas horinhas e só trouxe de lá coisas boas.
A primeira foi a vacina do tétano. Eu nem sei onde anda o meu boletim de vacinas (será que pedem na inscrição para mestrado? É que, a ser recusada num mestrado, preciso que seja por uma razão mais pomposa do que um mero boletim). Mas como caí na terra e não fui levar os pontos quando devia, o sr. enfermeiro achou que dar-me a vacina do tétano era bom. E eu concordo, que assim poupo nova visita ao centro de saúde quando encontrar o boletim e vir lá que já a devia ter tomado há 2 anos.
A outra foi a agradável conversa com o sr. enfermeiro que me estava a salvar a vida.
"O que é que estuda?"
"Estudei. Jornalismo!"
"Ah... esse mal da sociedade"
Ora, estava aqui um diálogo que tinha tudo para dar certo. Até porque argumentar a favor do jornalismo com um profissional de saúde, numa altura de gripe A, deixa-me em maus lençóis. Mas eu batalhei para que, passados dois minutos, o sr. enfermeiro já conseguisse chamar ao jornalismo "mal necessário".
Eu sei que os Media fazem muita porcaria, sei sim senhor. Que manipulam, moldam a realidade, comem criancinhas, sei isso tudo. Mas o que seria de uma sociedade sem jornalismo? Até o 24 Horas tem a sua utilidade, uma vez de 5 em 5 anos pelo menos. Já sem a Manuela Moura Guedes, ambos concordamos que viveríamos todos mais felizes, mas não há bela sem senão.
Falamos da porcaria da Gripe e eu dei o exemplo de Berlim e Londres, onde estive há duas semanas. Em Berlim tudo me pareceu civilizado. As pessoas estavam a ser alertadas para terem mais cuidados com a higiene e tal, mas ninguém olhava horrorizado sempre que um pobre coitado espirrava.
Já em Londres, havia cartazes grandes em papelão que diziam isto.
Não são ambos jornalismo? De quem é a culpa por estas diferenças?
Entre lobbies de farmácias e as falhas do sistema nacional de saúde, a minha despedida do enfermeiro foi feita ao som de uma notícia que a TSF começou a transmitir naquele momento:
Londres apoiou transferência de bombista em troca de contrato petrolífero
O jornal inglês Sunday Times noticiou, este domingo, que o governo britânico apoiou a inclusão do bombista de Lockerbie num acordo de transferência de prisioneiros com a Líbia em troca de um contrato petrolífero com aquele país.
Estava dado o argumento que me fez ganhar a discussão a favor do jornalismo. Mas se o jornalismo fosse mais feito deste material em vez daquele que mais vemos diariamente, tenho a certeza que a discussão nunca teria sequer começado.
Um deserto de ideias, mantido por um cérebro composto apenas por alguns grãos de areia.
31 agosto, 2009
30 agosto, 2009
Ironia é...
... Quase matar a minha própria perna num buraco, a caminho de um concerto de Mão Morta...
E este post inútil acaba de ser editado para agradecer uma honrosa menção, recebida por este pasquim. Ainda por cima de um blog a sério, que por acaso é aquele que mais gosto me dá ler. Creio que isto só pode ser explicado com algum sol em excesso que o caro Pedro Correia apanhou neste tórrido dia :)
Obrigada, Delito de Opinião!
Decidi passar o título de Blog Viciante a... tcham tcham tcham tcham....
Pronúncia do Norte
União de Facto (que apesar de vetados pelo nosso presidente da República, continuam fortíssimos)
Vozes de Burros
Havia mais, mas estou com pressa para ir à casa-de-banho limpar a baba :)
E este post inútil acaba de ser editado para agradecer uma honrosa menção, recebida por este pasquim. Ainda por cima de um blog a sério, que por acaso é aquele que mais gosto me dá ler. Creio que isto só pode ser explicado com algum sol em excesso que o caro Pedro Correia apanhou neste tórrido dia :)
Obrigada, Delito de Opinião!
Decidi passar o título de Blog Viciante a... tcham tcham tcham tcham....
Pronúncia do Norte
União de Facto (que apesar de vetados pelo nosso presidente da República, continuam fortíssimos)
Vozes de Burros
Havia mais, mas estou com pressa para ir à casa-de-banho limpar a baba :)
27 agosto, 2009
Aposto que foi só um equívoco. Desta e das outras vezes todas
Quem acha que se deve apregoar um "Estágio Remunerado" e depois tudo o que oferece são 150€ por mês de subsídio de alimentação e transporte, ponha a mão no ar!!
Heróis da bola, divirtam o povo, nação demente, imoral
"Queiroz chama Levezinho"
- Liedson já foi convocado para os próximos dois jogos da selecção de Portugal!!!!!!!!!!
Iupiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!! Não caibo em mim de felicidade! É uma grande jogada para a selecção nac... perdão, para o Portugal Futebol Clube!! Estou tão esperançada na elevação do bom nome do nosso país! Vou comprar uma bandeira brasileira no caso de sermos apurados, para pendurar na janela!!
Passando do futebol para o atletismo, não percebo porquê tanto alarido em relação a se a atleta Semeneya, da África do Sul, é ou não uma mulher. No BI não diz que é mulher? O que é que isso sequer interessava? Se ela fosse um ele e não tivesse qualidade suficiente para competir com homens, porque é que não poderia competir no campeonato feminino se mudasse uns quantos papeis? Se dissesse algo tipo "gostaria muito de poder naturalizar-me mulher e competir pela África do Sul, e quando aquele papel disser que sou mulher nada me impedirá de competir, caso o seleccionador me chame". E o público da África do Sul ia vibrar com 'a' sua atleta imbatível!!! Tomem lá [símbolo de um manguito], outros países!!!
Voltando ao futebol: Força PFC, provem que são a equipa que melhor sabeformar naturalizar, não se deixem ultrapassar pela França, Alemanha ou o Botsuana neste campeonato de quem tem mais brasileiros na sua selecção nacional!!
- Liedson já foi convocado para os próximos dois jogos da selecção de Portugal!!!!!!!!!!
Iupiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!! Não caibo em mim de felicidade! É uma grande jogada para a selecção nac... perdão, para o Portugal Futebol Clube!! Estou tão esperançada na elevação do bom nome do nosso país! Vou comprar uma bandeira brasileira no caso de sermos apurados, para pendurar na janela!!
Passando do futebol para o atletismo, não percebo porquê tanto alarido em relação a se a atleta Semeneya, da África do Sul, é ou não uma mulher. No BI não diz que é mulher? O que é que isso sequer interessava? Se ela fosse um ele e não tivesse qualidade suficiente para competir com homens, porque é que não poderia competir no campeonato feminino se mudasse uns quantos papeis? Se dissesse algo tipo "gostaria muito de poder naturalizar-me mulher e competir pela África do Sul, e quando aquele papel disser que sou mulher nada me impedirá de competir, caso o seleccionador me chame". E o público da África do Sul ia vibrar com 'a' sua atleta imbatível!!! Tomem lá [símbolo de um manguito], outros países!!!
Voltando ao futebol: Força PFC, provem que são a equipa que melhor sabe
26 agosto, 2009
25 agosto, 2009
I got memories
Mais uma tour, desta vez longe de Portugal. E se Maomé não vai à montanha, vai a Sara ver Pearl Jam a Berlim, Manchester e Londres. Ou melhor, foi! Foi. E foi incrível...





E custou mas foi... foi ao 9º concerto que ouvi a minha música preferida. A música perfeita para se começar. Algo.
O choro soluçante vem junto. Que raio de felicidade é esta que deriva de uns acordes?... Anos, muitos anos de espera que se consomem em 5 minutos. Só uma banda tão especial arrasta as pessoas do seu país, suga-lhes as economias, tira-lhes o sono em filas e faz com que tudo valha a pena em meia dúzia de segundos.
Para mim, essa banda são os Pearl Jam.





E custou mas foi... foi ao 9º concerto que ouvi a minha música preferida. A música perfeita para se começar. Algo.
O choro soluçante vem junto. Que raio de felicidade é esta que deriva de uns acordes?... Anos, muitos anos de espera que se consomem em 5 minutos. Só uma banda tão especial arrasta as pessoas do seu país, suga-lhes as economias, tira-lhes o sono em filas e faz com que tudo valha a pena em meia dúzia de segundos.
Para mim, essa banda são os Pearl Jam.
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(L),
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Música
11 agosto, 2009
A informação que interessa
Ronaldo não tem gripe A.
Esta é uma das manchetes de hoje do jornal Record.
Podia fazer sentido se o Record ontem tivesse noticiado que Ronaldo tinha Gripe A, mas não consta que o tenha feito. Mais a mais, se um jornal desportivo fosse a fazer manchete com a informação correcta de todas as informações erradas [mentiras, boatos (...)] que divulga alegremente todos os dias, estavam tramados. Se calhar era melhor ter um matutino, onde se desmentiam as mentiras do dia anterior, e um vespertino, onde se noticiavam mais aldrabices de transferências inexistentes e tal, não esquecendo de dar parca importância a casos de corrupção no futebol, que isso até é mau para o negócio.
Mas não. O Record ontem nem sequer tinha noticiado que Ronaldo tinha gripe A.
Já agora, queria aqui também avançar, em primeira mão - num espantoso exclusivo deste blog - algumas informações igualmente importantes:
-Hoje não chove
-Portugal não é uma monarquia
-A minha mãe vai fazer bacalhau para o almoço
Não precisam de agradecer, gosto de partilhar os furos de que vou sabendo...
Esta é uma das manchetes de hoje do jornal Record.
Podia fazer sentido se o Record ontem tivesse noticiado que Ronaldo tinha Gripe A, mas não consta que o tenha feito. Mais a mais, se um jornal desportivo fosse a fazer manchete com a informação correcta de todas as informações erradas [mentiras, boatos (...)] que divulga alegremente todos os dias, estavam tramados. Se calhar era melhor ter um matutino, onde se desmentiam as mentiras do dia anterior, e um vespertino, onde se noticiavam mais aldrabices de transferências inexistentes e tal, não esquecendo de dar parca importância a casos de corrupção no futebol, que isso até é mau para o negócio.
Mas não. O Record ontem nem sequer tinha noticiado que Ronaldo tinha gripe A.
Já agora, queria aqui também avançar, em primeira mão - num espantoso exclusivo deste blog - algumas informações igualmente importantes:
-Hoje não chove
-Portugal não é uma monarquia
-A minha mãe vai fazer bacalhau para o almoço
Não precisam de agradecer, gosto de partilhar os furos de que vou sabendo...
08 agosto, 2009
O PSD é a loira do sistema político
Se eu fosse uma jornalista com emprego, estava a esfregar as mãos de contente, com todo o material que o PSD dá à imprensa. É que este ano nem sequer há incêndios e os media precisam de ocupar as suas páginas / horas de informação com algo mais do que as temperaturas ou o Cristiano Ronaldo.
Ontem foi Luís Filipe Menezes, que acordou bem disposto (mas esquecido):
Luís Filipe Menezes apelou à união do partido.
Em entrevista à SIC, Menezes considerou que a situação "terá de ser corrigida no futuro", mas sublinhou que o PSD não pode surgir "na praça pública como um partido dividido".
Quem me dera ter um partido só para ter um membro como Luís Filipe Menezes ao meu lado!
Um membro que pudesse lutar contra esses abutres que só semeiam a discórdia, dando a imagem de um PSD dividido, em guerra interna. Com um membro assim, coisas como estas poderiam ser evitadas:
22-08-2008
Luís Filipe Menezes ataca silêncio de Manuela Ferreira Leite
2-10-2008
Estabilidade semipresidencial em causa: Menezes critica Ferreira Leite
3-11-2008
«Porque não se cala [Manuela Ferreira Leite]?»
18-11-2008
“Sá Carneiro deve dar voltas no túmulo” com declarações de Ferreira Leite"
18-12-2008
Luís Filipe Menezes acusa Ferreira Leite de «falta de seriedade intelectual» ao apoiar Santana
Que pena que estou atrasada e só tive tempo de chegar até aos artigos do ano passado.
Que bela é a união <3
Ontem foi Luís Filipe Menezes, que acordou bem disposto (mas esquecido):
Luís Filipe Menezes apelou à união do partido.
Em entrevista à SIC, Menezes considerou que a situação "terá de ser corrigida no futuro", mas sublinhou que o PSD não pode surgir "na praça pública como um partido dividido".
Quem me dera ter um partido só para ter um membro como Luís Filipe Menezes ao meu lado!
Um membro que pudesse lutar contra esses abutres que só semeiam a discórdia, dando a imagem de um PSD dividido, em guerra interna. Com um membro assim, coisas como estas poderiam ser evitadas:
22-08-2008
Luís Filipe Menezes ataca silêncio de Manuela Ferreira Leite
2-10-2008
Estabilidade semipresidencial em causa: Menezes critica Ferreira Leite
3-11-2008
«Porque não se cala [Manuela Ferreira Leite]?»
18-11-2008
“Sá Carneiro deve dar voltas no túmulo” com declarações de Ferreira Leite"
18-12-2008
Luís Filipe Menezes acusa Ferreira Leite de «falta de seriedade intelectual» ao apoiar Santana
Que pena que estou atrasada e só tive tempo de chegar até aos artigos do ano passado.
Que bela é a união <3
06 agosto, 2009
Vais (já foste) Partir...
Adio, Adieu, Auf Wiedersehen, Goodbye
Amore, Amour, Meine Liebe, Love Of My Life
Se o nosso amor findar, só me ouvirás cantar:
Adio, Adieu, Auf Wiedersehen, Goodbye!
Por isso já sabes... se daqui a 1 ano não voltares, vou-te perseguir para sempre com músicas do José Cid!
See you soon, minha ovelha oxfordiana *
Amore, Amour, Meine Liebe, Love Of My Life
Se o nosso amor findar, só me ouvirás cantar:
Adio, Adieu, Auf Wiedersehen, Goodbye!
Por isso já sabes... se daqui a 1 ano não voltares, vou-te perseguir para sempre com músicas do José Cid!
See you soon, minha ovelha oxfordiana *
05 agosto, 2009
03 agosto, 2009
Assuntos sérios? Agora não me dá muito jeito
Noticiário TVI da hora de almoço. Manuela Ferreira Leite visita tribunais em Vila Franca de Xira. Os jornalistas querem saber a opinião da líder do PSD sobre a discussão em torno da lei que impede acusados de crimes de serem candidatos a eleições.
Manuela Ferreira Leite não comenta. Segundo a candidata a primeira-ministra do país, “Não se discutem assuntos muito sérios em véspera de eleições”.
No entanto, Manuela Ferreira Leite ousa declarar que os tribunais vivem em condições “chocantes” e tal. Não acredito... A ser verdade é um escândalo!! De certeza que isto é coisa desses socialistas que governam desde 2005. Antes disso, durante o governo PSD, os tribunais funcionavam que era uma maravilha. É preciso que alguém denuncie esta situação e Manuela Ferreira Leite, como sempre, está na vanguarda do debate.
Agora a sério: que Manuela Ferreira Leite não discute/não comenta/não está, já todos sabemos. Que os nossos tribunais funcionam mal… também me parece que até em Espanha já devem saber.
Trabalho de casa: descobrir onde está a notícia aqui.
Manuela Ferreira Leite não comenta. Segundo a candidata a primeira-ministra do país, “Não se discutem assuntos muito sérios em véspera de eleições”.
No entanto, Manuela Ferreira Leite ousa declarar que os tribunais vivem em condições “chocantes” e tal. Não acredito... A ser verdade é um escândalo!! De certeza que isto é coisa desses socialistas que governam desde 2005. Antes disso, durante o governo PSD, os tribunais funcionavam que era uma maravilha. É preciso que alguém denuncie esta situação e Manuela Ferreira Leite, como sempre, está na vanguarda do debate.
Agora a sério: que Manuela Ferreira Leite não discute/não comenta/não está, já todos sabemos. Que os nossos tribunais funcionam mal… também me parece que até em Espanha já devem saber.
Trabalho de casa: descobrir onde está a notícia aqui.
Estes homossexuais que querem dar sangue para provocar...
O dia em que eu passei no código foi um dia atribulado. Volto agora à que foi, para mim, a segunda 'notícia' do dia - uma entrevista do presidente do Instituto Português do Sangue ao jornal i
"Gays que não se assumam devem ser processados"
Presidente do Instituto Português do Sangue invoca a experiência internacional e estudos científicos para justificar uma exclusão que não vê como sinónimo de discriminação
É evidente que a exclusão é sempre por comportamento de risco, nunca por grupo de risco. Está provado - todos os meses saem relatórios - que o risco do homem que tem sexo com outro homem é grande. De tal modo que os ingleses publicaram em Março uma resolução para poderem perguntar explicitamente aos possíveis dadores se tiveram sexo anal ou oral com outro homem. E não é por terem nada contra os gays. Nós fazemos as palavras deles nossas. Há factores de risco identificados e são exactamente esses factores que procuramos detectar. A nossa missão é dar o sangue mais seguro possível ao doente. É para isso que estamos aqui. O doente tem esse direito.
Mas por que considera que ser homossexual é ter um comportamento de risco? A pergunta não devia ser: Fez sexo desprotegido, independentemente da orientação sexual?
Todos os dados apontam no sentido de haver uma maior liberalidade do comportamento das pessoas que têm sexo com outros homens. E vou evitar usar a palavra homossexual, porque parece que não é politicamente correcto. Por causa do politicamente correcto, quase nos falta palavras para usar. Não posso falar de selecção de dadores, que me chamam Hitler. Nós não temos absolutamente nada contra os homossexuais. A doação de sangue é feita sem olhar a religião, a partidos, a nada. É feita porque há pessoas que precisam dela. Todo o esforço tem que ser o de encontrar o melhor sangue. Mas então toda a Europa, todo o mundo está enganado? Países muito liberais, como a Holanda ou a Suécia, estão enganados quando dizem que esse comportamento é de risco?
Homens que têm sexo com homens são excluídos em toda a Europa?
São, excepto na Itália. É evidente que tudo é baseado na confidencialidade. O dador chega e são-lhe feitas perguntas que são muito embaraçosas para qualquer pessoa. Mas se a pessoa quer dar sangue, tem que fazer isto. Sabemos quais as situações de risco e temos que perguntar até chegarmos àquele ponto em que consideramos: tenho dúvidas. E, na dúvida, não aceitamos.
(...)
Mas qual é exactamente comportamento de risco nos homossexuais que faz com que sejam excluídos?
Múltiplos parceiros, relações não protegidas, fazer sexo oral e anal.
Mas todas essas perguntas também se aplicam, exactamente da mesma forma, aos heterossexuais.
E nós perguntamos.
Mas não os excluem à partida.
Excluímos. Esse é que é o equívoco. Todas as pessoas que têm estes comportamentos são excluídas. A média de exclusão é na ordem dos 27% a 30%. Às vezes vamos a escolas superiores e excluímos 50% ou mais. Não é porque estejam infectados, é porque basta uma relação sexual não protegida nos últimos seis meses para anular a dádiva. É muito desanimador quando vamos a um sítio destes e metade são excluídos por comportamentos de risco. Mas há uma diferença. Estes são eliminados e aceitam, os homossexuais não. E dizem que é discriminação.
E quando a relação é protegida?
A relação sexual nunca é 100% protegida, isso é outro equívoco. Há preservativos que se rompem, pode haver fuga de líquidos, outros contactos. Não estamos a dizer que não aceitamos homossexuais, mas que não aceitamos comportamentos de risco.
Um casal homossexual com uma relação estável e sem outros parceiros tem mais risco que um casal heterossexual na mesma condição?
Essa é uma pergunta difícil. A verdade é que não temos ainda, apesar das tentativas, um questionário que nos permita fazer a divisão. O comportamento de risco é analisado e avaliado, não sabemos qual é o resultado. Pode ser aceite ou não ser. Se a pessoa diz que não teve outro parceiro e o parceiro também garante que não teve outro, a decisão pode ser a de aceitar. Mas a experiência também nos diz que relações que em princípio eram totalmente monogâmicas não são tão monogâmicas assim.
Mas isso para toda a população, independentemente da orientação sexual...
Sim, para toda a população. Agora o que os dados apontam - e é isto que as pessoas têm que aceitar, tenho pena, mas têm que aceitar - é que os homens representam 85% da prevalência da infecção. É a coordenação para o VIH que diz isso...
A coordenação diz que os homossexuais deixaram de ser o grupo de maior transmissão do vírus há anos.
Há um problema com esses dados. Não dizem nada, estão encriptados. Os dados dizem que 58% infectadas são heterossexuais e 16,6% homossexuais. Acha que em Portugal existe um homossexual para cada três heterossexuais?
Esses dados aplicam-se aos casos de infectados, não à população em geral.
Sim, são dos novos casos. E aqui há discrepância. As estatísticas internacionais dizem que dois terços do total de infecção em homens - são homens que tiveram sexo com homens. A taxa de infecção naquela população é muito elevada.
O coordenador é epidemiologista e diz que não há razão para a exclusão.
Eu prezo muito o professor Henrique Barros, é um homem competente e tem uma tarefa terrível que é conseguir tirar Portugal do lugar que ocupa na infecção por VIH. Estamos no 52.º lugar de 53 países na Europa. Foi uma herança pesada que recebeu e tem que lidar com ela. Mas outra coisa é a doação de sangue. Há uma posição de conforto que é não ter que assumir a responsabilidade pela segurança do sangue. Nós é que somos os técnicos desta área, nós é que temos que decidir, não é uma pessoa que tem a tarefa ingrata de lidar com o VIH.
O sangue é sempre analisado, incluindo o de um homossexual que mente?
As análises só por si não são suficientes para garantir a 100%. Entre o momento em que se dá uma infecção e o momento em que ela é detectada, há um período de janela em que não conseguimos detectar nada. No VIH, eram 21 dias, agora são sete. Mas, mesmo com a nova tecnologia, o teste não detecta hoje uma pessoa que se infectou há uma semana. Só uma história clínica bem feita e a auto-exclusão podem ajudar. Se uma pessoa vier para ver se dá positivo, a infecção pode passar. Por isso, fico estarrecido com afirmações de líderes de movimentos activistas que vêm dizer que vão passar a esconder o facto de serem homossexuais. E ninguém se revolta? Isto é deliberadamente querer introduzir no circuito sangue contaminado. Ética, moral e criminalmente pode ser processado.
Qual é a percentagem de casos positivos detectados nas colheitas?
No ano passado tivemos oito casos, o que dá um para 25 mil doações.
E eram homens que tinham relações com outros homens?
Alguns eram.
Mas também havia heterossexuais.
Provavelmente. As pessoas devem estar informadas sobre o que os especialistas consideram comportamento de risco e devem aceitar. Esse é o apelo que fazemos: aceitem a nossa opinião. Os especialistas não estão todos enganados.
Mas qual é a base científica na qual se baseia para dizer que os homossexuais têm mais comportamentos de risco?
Eu não disse isso. A evidência que temos são inúmeros trabalhos que mostram uma maior prevalência de determinadas doenças sexualmente transmissíveis, e por transfusão neste grupo de pessoas que tem este comportamento. Isso está mais do que provado.
Que gays têm mais sexo inseguro?
Os números mostram isso.
Os números da infecção?
Não só por VIH. A sífilis aumentou na Austrália e no Reino Unido, sobretudo à custa das relações homem com homem.
Assume que há uma descriminação, mas justifica-a por segurança.
Não discriminamos. Mas temos por obrigação garantir que fazemos tudo pela segurança. Mesmo sendo injustos para algumas pessoas que poderiam dar sangue mas que, na dúvida são excluídas. A malha é muito apertada. Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação. Quem quer vir dar sangue não vem com esta atitude.
Volto à pergunta inicial, a exclusão é por grupo ou comportamento? Nesse caso, a pessoa até pode praticar abstinência sexual.
Algumas questões não fazem sentido. Ter uma relação homem com homem e ser excluído para o resto da vida. Defendemos que haja uma certa abertura. Homens que foram violados, não devem ser excluídos. Se for esporádico, é justo? Não. Estamos a falar em aspectos técnicos e são os especialistas que têm o conhecimento e a população deve aceitar os conselhos dos especialistas.
Mas os especialistas dividem-se.
Não. Uma coisa é o aspecto técnico. Outra aspecto é o politicamente correcto. Mas quem segue o politicamente correcto não tem a responsabilidade que nós temos. Com os doentes não há lugar ao politicamente correcto, mas ao tecnicamente correcto.
Em 2006, o IPS mudou as regras.
O que fez foi retirar a palavra homossexual e substituir por comportamento de risco. Politicamente correcto. Na prática, manteve-se o mesmo.
Não prevê nenhuma mudança?
No dia em que for possível detectar uma infecção no mesmo dia o problema ficaria resolvido.>
José Sócrates disse esta semana na Blog Conf que a decisão o chocou e que merecia estudo. Foi contactado pelo gabinete do primeiro-ministro?
Não. A ministra deu o seu apoio.
Não lhe foi retirada a confiança política?
A confiança política podem retirar sempre, a técnica é que não.
Por Rute Araújo
________________________________________________
Gosto de pessoas que se estão a cagar para o politicamente correcto e que até denunciam o politicamente correcto. E por isso podia perfeitamente gostar deste senhor, não fosse ele um adepto daquilo chamado... ai, como era... Ah! Discriminação (assim, com i, jornal i).
Só a afirmação "Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação. Quem quer vir dar sangue não vem com esta atitude" mata logo qualquer conversa. E, para mim, há uma diferença entre cagar no politicamente correcto e ser-se um bocado estúpido.
Admito, ainda, ser eu a estúpida (coisa 99% mais provável). Ainda assim, gostava de saber porque é que um homossexual não pode querer doar sangue se estiver numa relação estável e usar preservativo.
Responder-me-ia o senhor presidente Gabriel Olim (mas porque raio o nome do presidente do IPS não é referido uma única vez no artigo?)que ah e tal relações que se afirmavam monogâmicas afinal tinham as suas facadinhas. Hum... não me convenceu. Isso é válido tanto para gays como para heteros.
A resposta do sr presidente é um bocado fraquinha... Diz ele que ah e tal, a prevalência de HIV nos homens é de 85%. Isto quer dizer que os homens heteros que dão facadinhas matrimoniais são mais dignos de confiança do que gays? Do que eu leio na entrevista sim. Porque tanto num caso como noutro há risco. Quero acreditar que o IPS não arrisca a nossa saúde pensando "Hum, este hetero tem aspecto de quem molha o pincel em vários sítios... mas como as probabilidades de contrair HIV são mais baixas siga lá com isso".
Outra pergunta que gostaria de ver respondida era: se um heterossexual mentir sobre o seu comportamento, também deve ser "processado"? E se um homossexual não tiver relações sexuais há meses ou ter um único parceiro e praticar sexo seguro, também deve ser processado por não admitir as suas tendências??
Se as análises ao sangue só não podem detectar infecções contraídas há cerca de uma semana, porque raio é que só deve haver uma certa abertura se as relações entre homens forem "esporádicas" ou isso tiver acontecido em caso de violação?!?
Valha-me santa paciência...
Afinal que critérios usa o IPS para garantir a segurança que todos esperamos? Se há riscos para todos os grupos (não interessa se nuns há mais do que há menos, eles existem), como é possível não querer aceitar sangue de homossexuais (homens) com relações estáveis e protegidas por desconfiança na sua promiscuidade e aceitar as de heterossexuais?
E esta é uma das razões que dá toda a legitimidade aos homossexuais de se sentirem discriminados, caso o senhor presidente não tenha entendido antes, como ficou patente na entrevista.
É incrível que o presidente de uma entidade deste nível afirme que exclui, sim senhora, o sangue de heterossexuais que afirmam ter comportamentos de risco, mas que queira excluir homossexuais que afirmam não ter comportamentos de risco, só porque, 'ui, ai,consta que eles são muito promíscuos, nunca se sabe'.
E ainda que as análises não possam detectar logo infecções, continua a ser, na minha opinião, injusto afastar os gays sob essa lacuna, pela mesma razão que já apontei antes.
Ao ler esta entrevista retiro que, para o IPS, os gays homens são menos dignos de confiança do que a restante população. E isto não se desculpa com razões "técnicas". Por isso, no fundo, acho que o senhor Gabriel Olim é mais um dos politicamente correctos que tanto desdenhou na sua entrevista. Porque, em vez de assumir uma discriminação, desculpa-se com "razões técnicas".
Numa coisa concordo com o senhor:
"No dia em que for possível detectar uma infecção no mesmo dia o problema ficaria resolvido".
"Gays que não se assumam devem ser processados"
Presidente do Instituto Português do Sangue invoca a experiência internacional e estudos científicos para justificar uma exclusão que não vê como sinónimo de discriminação
É evidente que a exclusão é sempre por comportamento de risco, nunca por grupo de risco. Está provado - todos os meses saem relatórios - que o risco do homem que tem sexo com outro homem é grande. De tal modo que os ingleses publicaram em Março uma resolução para poderem perguntar explicitamente aos possíveis dadores se tiveram sexo anal ou oral com outro homem. E não é por terem nada contra os gays. Nós fazemos as palavras deles nossas. Há factores de risco identificados e são exactamente esses factores que procuramos detectar. A nossa missão é dar o sangue mais seguro possível ao doente. É para isso que estamos aqui. O doente tem esse direito.
Mas por que considera que ser homossexual é ter um comportamento de risco? A pergunta não devia ser: Fez sexo desprotegido, independentemente da orientação sexual?
Todos os dados apontam no sentido de haver uma maior liberalidade do comportamento das pessoas que têm sexo com outros homens. E vou evitar usar a palavra homossexual, porque parece que não é politicamente correcto. Por causa do politicamente correcto, quase nos falta palavras para usar. Não posso falar de selecção de dadores, que me chamam Hitler. Nós não temos absolutamente nada contra os homossexuais. A doação de sangue é feita sem olhar a religião, a partidos, a nada. É feita porque há pessoas que precisam dela. Todo o esforço tem que ser o de encontrar o melhor sangue. Mas então toda a Europa, todo o mundo está enganado? Países muito liberais, como a Holanda ou a Suécia, estão enganados quando dizem que esse comportamento é de risco?
Homens que têm sexo com homens são excluídos em toda a Europa?
São, excepto na Itália. É evidente que tudo é baseado na confidencialidade. O dador chega e são-lhe feitas perguntas que são muito embaraçosas para qualquer pessoa. Mas se a pessoa quer dar sangue, tem que fazer isto. Sabemos quais as situações de risco e temos que perguntar até chegarmos àquele ponto em que consideramos: tenho dúvidas. E, na dúvida, não aceitamos.
(...)
Mas qual é exactamente comportamento de risco nos homossexuais que faz com que sejam excluídos?
Múltiplos parceiros, relações não protegidas, fazer sexo oral e anal.
Mas todas essas perguntas também se aplicam, exactamente da mesma forma, aos heterossexuais.
E nós perguntamos.
Mas não os excluem à partida.
Excluímos. Esse é que é o equívoco. Todas as pessoas que têm estes comportamentos são excluídas. A média de exclusão é na ordem dos 27% a 30%. Às vezes vamos a escolas superiores e excluímos 50% ou mais. Não é porque estejam infectados, é porque basta uma relação sexual não protegida nos últimos seis meses para anular a dádiva. É muito desanimador quando vamos a um sítio destes e metade são excluídos por comportamentos de risco. Mas há uma diferença. Estes são eliminados e aceitam, os homossexuais não. E dizem que é discriminação.
E quando a relação é protegida?
A relação sexual nunca é 100% protegida, isso é outro equívoco. Há preservativos que se rompem, pode haver fuga de líquidos, outros contactos. Não estamos a dizer que não aceitamos homossexuais, mas que não aceitamos comportamentos de risco.
Um casal homossexual com uma relação estável e sem outros parceiros tem mais risco que um casal heterossexual na mesma condição?
Essa é uma pergunta difícil. A verdade é que não temos ainda, apesar das tentativas, um questionário que nos permita fazer a divisão. O comportamento de risco é analisado e avaliado, não sabemos qual é o resultado. Pode ser aceite ou não ser. Se a pessoa diz que não teve outro parceiro e o parceiro também garante que não teve outro, a decisão pode ser a de aceitar. Mas a experiência também nos diz que relações que em princípio eram totalmente monogâmicas não são tão monogâmicas assim.
Mas isso para toda a população, independentemente da orientação sexual...
Sim, para toda a população. Agora o que os dados apontam - e é isto que as pessoas têm que aceitar, tenho pena, mas têm que aceitar - é que os homens representam 85% da prevalência da infecção. É a coordenação para o VIH que diz isso...
A coordenação diz que os homossexuais deixaram de ser o grupo de maior transmissão do vírus há anos.
Há um problema com esses dados. Não dizem nada, estão encriptados. Os dados dizem que 58% infectadas são heterossexuais e 16,6% homossexuais. Acha que em Portugal existe um homossexual para cada três heterossexuais?
Esses dados aplicam-se aos casos de infectados, não à população em geral.
Sim, são dos novos casos. E aqui há discrepância. As estatísticas internacionais dizem que dois terços do total de infecção em homens - são homens que tiveram sexo com homens. A taxa de infecção naquela população é muito elevada.
O coordenador é epidemiologista e diz que não há razão para a exclusão.
Eu prezo muito o professor Henrique Barros, é um homem competente e tem uma tarefa terrível que é conseguir tirar Portugal do lugar que ocupa na infecção por VIH. Estamos no 52.º lugar de 53 países na Europa. Foi uma herança pesada que recebeu e tem que lidar com ela. Mas outra coisa é a doação de sangue. Há uma posição de conforto que é não ter que assumir a responsabilidade pela segurança do sangue. Nós é que somos os técnicos desta área, nós é que temos que decidir, não é uma pessoa que tem a tarefa ingrata de lidar com o VIH.
O sangue é sempre analisado, incluindo o de um homossexual que mente?
As análises só por si não são suficientes para garantir a 100%. Entre o momento em que se dá uma infecção e o momento em que ela é detectada, há um período de janela em que não conseguimos detectar nada. No VIH, eram 21 dias, agora são sete. Mas, mesmo com a nova tecnologia, o teste não detecta hoje uma pessoa que se infectou há uma semana. Só uma história clínica bem feita e a auto-exclusão podem ajudar. Se uma pessoa vier para ver se dá positivo, a infecção pode passar. Por isso, fico estarrecido com afirmações de líderes de movimentos activistas que vêm dizer que vão passar a esconder o facto de serem homossexuais. E ninguém se revolta? Isto é deliberadamente querer introduzir no circuito sangue contaminado. Ética, moral e criminalmente pode ser processado.
Qual é a percentagem de casos positivos detectados nas colheitas?
No ano passado tivemos oito casos, o que dá um para 25 mil doações.
E eram homens que tinham relações com outros homens?
Alguns eram.
Mas também havia heterossexuais.
Provavelmente. As pessoas devem estar informadas sobre o que os especialistas consideram comportamento de risco e devem aceitar. Esse é o apelo que fazemos: aceitem a nossa opinião. Os especialistas não estão todos enganados.
Mas qual é a base científica na qual se baseia para dizer que os homossexuais têm mais comportamentos de risco?
Eu não disse isso. A evidência que temos são inúmeros trabalhos que mostram uma maior prevalência de determinadas doenças sexualmente transmissíveis, e por transfusão neste grupo de pessoas que tem este comportamento. Isso está mais do que provado.
Que gays têm mais sexo inseguro?
Os números mostram isso.
Os números da infecção?
Não só por VIH. A sífilis aumentou na Austrália e no Reino Unido, sobretudo à custa das relações homem com homem.
Assume que há uma descriminação, mas justifica-a por segurança.
Não discriminamos. Mas temos por obrigação garantir que fazemos tudo pela segurança. Mesmo sendo injustos para algumas pessoas que poderiam dar sangue mas que, na dúvida são excluídas. A malha é muito apertada. Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação. Quem quer vir dar sangue não vem com esta atitude.
Volto à pergunta inicial, a exclusão é por grupo ou comportamento? Nesse caso, a pessoa até pode praticar abstinência sexual.
Algumas questões não fazem sentido. Ter uma relação homem com homem e ser excluído para o resto da vida. Defendemos que haja uma certa abertura. Homens que foram violados, não devem ser excluídos. Se for esporádico, é justo? Não. Estamos a falar em aspectos técnicos e são os especialistas que têm o conhecimento e a população deve aceitar os conselhos dos especialistas.
Mas os especialistas dividem-se.
Não. Uma coisa é o aspecto técnico. Outra aspecto é o politicamente correcto. Mas quem segue o politicamente correcto não tem a responsabilidade que nós temos. Com os doentes não há lugar ao politicamente correcto, mas ao tecnicamente correcto.
Em 2006, o IPS mudou as regras.
O que fez foi retirar a palavra homossexual e substituir por comportamento de risco. Politicamente correcto. Na prática, manteve-se o mesmo.
Não prevê nenhuma mudança?
No dia em que for possível detectar uma infecção no mesmo dia o problema ficaria resolvido.>
José Sócrates disse esta semana na Blog Conf que a decisão o chocou e que merecia estudo. Foi contactado pelo gabinete do primeiro-ministro?
Não. A ministra deu o seu apoio.
Não lhe foi retirada a confiança política?
A confiança política podem retirar sempre, a técnica é que não.
Por Rute Araújo
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Gosto de pessoas que se estão a cagar para o politicamente correcto e que até denunciam o politicamente correcto. E por isso podia perfeitamente gostar deste senhor, não fosse ele um adepto daquilo chamado... ai, como era... Ah! Discriminação (assim, com i, jornal i).
Só a afirmação "Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação. Quem quer vir dar sangue não vem com esta atitude" mata logo qualquer conversa. E, para mim, há uma diferença entre cagar no politicamente correcto e ser-se um bocado estúpido.
Admito, ainda, ser eu a estúpida (coisa 99% mais provável). Ainda assim, gostava de saber porque é que um homossexual não pode querer doar sangue se estiver numa relação estável e usar preservativo.
Responder-me-ia o senhor presidente Gabriel Olim (mas porque raio o nome do presidente do IPS não é referido uma única vez no artigo?)que ah e tal relações que se afirmavam monogâmicas afinal tinham as suas facadinhas. Hum... não me convenceu. Isso é válido tanto para gays como para heteros.
A resposta do sr presidente é um bocado fraquinha... Diz ele que ah e tal, a prevalência de HIV nos homens é de 85%. Isto quer dizer que os homens heteros que dão facadinhas matrimoniais são mais dignos de confiança do que gays? Do que eu leio na entrevista sim. Porque tanto num caso como noutro há risco. Quero acreditar que o IPS não arrisca a nossa saúde pensando "Hum, este hetero tem aspecto de quem molha o pincel em vários sítios... mas como as probabilidades de contrair HIV são mais baixas siga lá com isso".
Outra pergunta que gostaria de ver respondida era: se um heterossexual mentir sobre o seu comportamento, também deve ser "processado"? E se um homossexual não tiver relações sexuais há meses ou ter um único parceiro e praticar sexo seguro, também deve ser processado por não admitir as suas tendências??
Se as análises ao sangue só não podem detectar infecções contraídas há cerca de uma semana, porque raio é que só deve haver uma certa abertura se as relações entre homens forem "esporádicas" ou isso tiver acontecido em caso de violação?!?
Valha-me santa paciência...
Afinal que critérios usa o IPS para garantir a segurança que todos esperamos? Se há riscos para todos os grupos (não interessa se nuns há mais do que há menos, eles existem), como é possível não querer aceitar sangue de homossexuais (homens) com relações estáveis e protegidas por desconfiança na sua promiscuidade e aceitar as de heterossexuais?
E esta é uma das razões que dá toda a legitimidade aos homossexuais de se sentirem discriminados, caso o senhor presidente não tenha entendido antes, como ficou patente na entrevista.
É incrível que o presidente de uma entidade deste nível afirme que exclui, sim senhora, o sangue de heterossexuais que afirmam ter comportamentos de risco, mas que queira excluir homossexuais que afirmam não ter comportamentos de risco, só porque, 'ui, ai,consta que eles são muito promíscuos, nunca se sabe'.
E ainda que as análises não possam detectar logo infecções, continua a ser, na minha opinião, injusto afastar os gays sob essa lacuna, pela mesma razão que já apontei antes.
Ao ler esta entrevista retiro que, para o IPS, os gays homens são menos dignos de confiança do que a restante população. E isto não se desculpa com razões "técnicas". Por isso, no fundo, acho que o senhor Gabriel Olim é mais um dos politicamente correctos que tanto desdenhou na sua entrevista. Porque, em vez de assumir uma discriminação, desculpa-se com "razões técnicas".
Numa coisa concordo com o senhor:
"No dia em que for possível detectar uma infecção no mesmo dia o problema ficaria resolvido".
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